Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Um prato para dois, por favor

07 janeiro 2009 | 19:54 por Luiz Américo Camargo

De tanto ir a restaurantes, acabamos perdendo certas inibições. Ambientes e decorações deixam de intimidar, maîtres e hostess pomposos viram apenas parte da aventura, comensais deste ou daquele jeito não afetam, cardápios complicados também não assustam: se tiver dúvida, eu pergunto. Enfim, vou aos lugares pela comida. Desta forma, uma outra vergonha que larguei pelo caminho faz tempo foi a de dividir pratos. É mais barato, mais racional, possibilita que você experimente mais coisas sem ter de se empanturrar com uma porção gigante. Só que a maioria das pessoas ainda sente receio de propor esse esquema aos garçons. Não deveriam, mas é natural que pela cabeça de muita gente passem fantasias como: 1) vão achar que não tenho dinheiro para pagar a conta; 2) o garçom vai pensar que não sei comer com elegância; 3) o chef vai se ofender porque não estou provando o prato tal qual ele idealizou. 4) todas as alternativas anteriores, agravadas pelo fato de o manobrista ter olhado torto para o meu carro velho e/ou popular, e ter avisado o maître pelo Nextel. Tudo bobagem.

É claro que, se você pediu um menu-degustação, com porções já intencionalmente reduzidas, o bom senso manda não dividir. Mas para entradas, pratos e sobremesas do cardápio, qual o problema? Você estará pagando a conta do mesmo jeito e merece o mesmo respeito que qualquer cliente. Se, por um acaso, por questões de concepção, apresentação etc, a porção não pode ser dividida, dá-se um jeito – e faço isso muito frequentemente. É só pedir para que o prato, servido intocado em sua unicidade, seja colocado no meio da mesa: cada um pega seu garfo e vai bicando.
As boas casas, em geral, topam esse esquema, inclusive os restaurantes gastronômicos. Algumas, entretanto, cobram a mais para dividir, o que é uma tolice. Em vez disso, deveriam é incentivar que o cliente provasse mais alguma coisa, uma sugestão do dia, uma novidade.

Faz poucos dias, fui jantar com minha mulher no Arturito (R. Artur de Azevedo, 542). Como entrada, dividimos um prato, o farroto (feito com o cereal farro, à maneira de um risoto, aliás muito bom; copioso, sem timidez de sabor, e agradável de mastigar). E, em seguida, compartilhamos um ojo de bife, enorme, perfeitamente divisível (que estava apenas mediano, com o contrafilé um tanto fibroso e feito além do ponto; uma quase decepção, em vista das várias boas indicações que eu tinha ouvido sobre a carne; como guarnição, batatas Robuchon, gostosas, mas enjoativas). As porções foram satisfatórias e ninguém fez muxoxo sobre nossas escolhas. Não parece civilizado?