Paladar

Um vecchio de 20 anos

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Um vecchio de 20 anos

27 março 2014 | 00:32 por Luiz Américo Camargo

O Vecchio Torino, para mim, é uma espécie de enigma. No que diz respeito à mesa, é capaz de servir alguns dos melhores pratos de cucina clássica da cidade. No que diz respeito à experiência de fazer um repasto em seu salão, há sempre um senão. Uma sensação que ora vem do excêntrico ambiente; ora emana do excesso de idiossincrasias; ora surge da possibilidade de que a conta, sempre alta, traga alguma surpresa não muito agradável.

Giuseppe La Rosa, o chef e proprietário, inaugurou  a casa há vinte anos. Era início do Plano Real, o câmbio era estável e, naquele contexto, o cuoco dedicou-se principalmente às receitas de seu Piemonte natal, com bons produtos e um grau de autenticidade que o destacava de italianos da cidade. O restaurante começou cult, ganhou fama entre a elite, ensaiou entrar em moda e, no momento, para o bem e para o mal, saiu dos radares – por seus próprios esforços e escolhas.

Tradição. Ambiente excêntrico, cucina clássica e estilo peculiar. FOTO: Clayton de Souza/Estadão

Sempre comi muito bem no Vecchio Torino, embora nem tudo esteja do mesmo nível (acho que as sobremesas caíram de qualidade). Puxo pela memória e não encontro quem faça na cidade um nhoque melhor que o seu alla piemontese (R$ 69). Também não vejo competidores para o polpetone (já falo sobre o preço), bom de morder, saboroso sem ser bruto. Nem para o ossobuco (R$ 96), um exemplo de equilibrismo entre exuberância e delicadeza. Isso para não entrar na lasagna (R$ 63), feita com espinafre, ou no próprio couvert (R$ 27) – como resistir, por exemplo, à perfeita dosagem entre o azedo e o picante da caponata? E sem falar na trippa alla parmigiana, no brasato al barolo…

O Vecchio Torino, enfim, é uma grande cozinha. Só não acho que seja um grande restaurante porque escolheu dar tudo apenas aos amigos. Aos não-amigos, sobrou a lei, em interpretações muito particulares (e não falo só por mim; recebo muitos relatos de outras pessoas). Nada contra conceder mimos e regalias extras à freguesia mais assídua, que, ao longo do ano, prestigia fielmente o estabelecimento. Mas desde que o patamar mínimo de hospitalidade – para todos – também seja bom.

Posso descrever, por exemplo, um almoço recente. A casa não trabalha com vinhos em taça, embora às vezes tenha alguma garrafa aberta para esse fim. Indaguei se havia algum rótulo disponível, o garçom disse que não. Minutos depois, um habituê à mesa vizinha fez a mesma pergunta e… o vinho em copo foi servido. Pedi então o polpetone e o atendente me propôs servi-lo em dois tempos: primeiro, a massa (um excelente trucchioli); depois, a carne com a salada. Topei e só descobri na conta que o preço não era o do cardápio: ia de R$ 78 para R$ 92. Nem acho injusto que seja mais caro, mas custava avisar?

Talvez essas coisas não importem a seu público cativo, formado por famílias e clientes mais velhos, aos domingos. E, durante a semana, majoritariamente por jovens senhores de semblante preocupado ­–  quase sempre trocando mensagens no Whatsapp, à espera dos membros de suas confrarias de vinho. Porém, são práticas que espantam o comensal de primeira viagem. Precisava ser assim?

Por que este restaurante?
É um clássico fazendo 20 anos. E porque, apesar das controvérsias, sua cozinha deveria ser mais conhecida.

Vale?
Os pratos são caros, mas muito bons (sem bebida, gasta-se facilmente acima dos R$ 150/cabeça). Porém, questione pratos sem preço aparente; atenção com as “sugestões” de vinho e com a água; resista a “gentilezas” como um digestivo final. Se tomar esses cuidados, vale.

SERVIÇO – Vecchio Torino
R. Tavares Cabral, 119, Pinheiros
Tel.: 3816-0560
Horário de funcionamento: 12h/16h e 19h/0h (dom., 12h/16h; fecha 2ª)
Cc.: todos
Estac.: manob. R$ 15

(Obs: o texto aqui do blog é um pouco maior do que o do impresso, meramente por questões de espaço – que, no digital, não é um problema)

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