Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Vale a fila?

24 dezembro 2008 | 15:01 por Luiz Américo Camargo

Estou tentando lembrar aqui quando foi a última espera longa que peguei para ir a um restaurante. Os vinte e poucos minutos, há alguns dias, na Speranza da 13 de Maio, nem contam, pois foram bem diluídos na conversa com os amigos. Sem contar que o espírito já estava preparado: num dia de dezembro, com várias empresas fazendo confraternização, era fatal. Creio então que foi no Maní, há mais de um mês, 50 minutos até conseguir me acomodar. Quase sempre eu procuro reservar, ligo antes de chegar, enfim, sigo os trâmites para garantir a mesa. Mas tem vezes que não dá (a casa não reserva, ou já é tarde) e, nesses casos, só engrosso a fila se realmente preciso ir ao tal lugar – por vontade irredutível, ou por mister de ofício. Caso contrário, pergunto ao manobrista como está a lotação (o que é um risco), confirmo com o maître e procuro um outro restaurante. Aliás, recomendo sempre que as pessoas tenham a dignidade de não fazer fila em lugar de comida ruim.

Sei que paulistanos adoram se enfileirar, mas seria saudável se eles não criassem com isso um verdadeiro entrelaçamento de neuroses: o cliente, fissurado, quer porque quer estar ali, um endereço da moda etc; o restaurante, por sua vez, se aproveita do hype, valoriza o fato de seu salão ser disputado e por aí segue. Então, a casa está cheia e você deve aguardar uma hora? Se puder, agradeça e vá para outra similar, por que não?

Há lugares, contudo, cuja graça está na fila – e não há como não lembrar do clássico exemplo da Famiglia Mancini. Duas horas? Elas viraram parte do programa. Só que a cantina tem esse know-how específico, e já promove a farra a partir da calçada, com drinques, petiscos, tira-gostos. Bem, estou quase no ponto que quero abordar. A importância do acolhimento.
Do mesmo modo que nos irritamos com a conta que não chega, como foi comentado no post anterior – o tipo de coisa que macula nossa despedida de um bom jantar -, ser mal recebido é algo que compromete profundamente a experiência toda. É só reparar: muitas vezes, a espera para entrar nem é demorada. Mas é tão mal administrada que contamina até as papilas. A hostess que recebe de um jeito blasé, o garçom que não nos vê, o espaço desconfortável, a informação imprecisa sobre o fluxo, a sensação de que estão passando alguém na sua frente… A fórmula, enfim, de uma péssima espera. Vale aguardar? Claro que não.
Agora, eu retorno ao Maní.

Acho que era uma quinta-feira, talvez 23h, casa muito cheia. Eu queria (e precisava) ir até lá. Mas deu para esperar sentado, no banco do corredor de entrada, bebendo, provando dos belisquetes. As pessoas eram bem tratadas e, notava-se, a fila tinha um controle sério. Sem mencionar que, já na mesa, a refeição foi excelente. Pois o cliente, em resumo, só quer ser atendido, acolhido, notado. E que os profissionais dêem alguma satisfação, avisem de vez em quando como a coisa está indo, reconheçam que o visitante está lá numa situação, digamos, de quase fragilidade (a mistura de fome com impaciência é explosiva), e que, portanto, merece atenção especial. Isso independe de o restaurante ser de alta gastronomia ou não. É simpatia, talento no trato com o público. Se o programa é conduzido assim e a comida é muito boa, então, aí vale.