Paladar

Luiz Américo Camargo

Eu só queria jantar

Vecchia cucina, vieille Brasserie

09 agosto 2012 | 11:23 por Luiz Américo Camargo

Publicado no Paladar de 9/8/2012

É a Vecchia Cucina, ou é a bonne vieille Brasserie? É o restaurante de Sergio Arno de cardápio novo e disfarçando o sotaque, ou simplesmente a nova fase de Erick Jacquin?

A Brasserie fechou as portas no mês passado, em Higienópolis, onde nasceu e se criou, para reabri-las no Itaim-Bibi. Segundo tem dito o próprio Jacquin, a mudança vai além da busca por uma região mais efervescente. É também um reencontro com seu mais antigo público paulistano – ele se instalou no bairro em 1995, para trabalhar no Le Coq Hardy.

Num exame inicial, a olho nu, a disposição do terreno ainda é a dos tempos do La Vecchia. A entrada, o bar, o primeiro salão, o ambiente dos fundos, a arquitetura, enfim, tudo evoca a velha casa de Sergio Arno. É examinando com lente, no detalhe – o piso, os móveis, os elementos decorativos – que se percebe a mudança. Novamente analisando de relance, a primeira sensação é de perda: onde está a estilosa casa da Rua Bahia? Mas coloque novamente os óculos. A Brasserie parece mais vibrante, menos conformada.

Erick Jacquin manteve seus pratos de maior sucesso (leia-se steak tartare, pato na panela à dr. Ricardo, robalo no vapor, etc.) e instituiu novas fórmulas para o cardápio, mais acessíveis. Ao meio-dia, por R$ 47, serve entrada e prato, com grande variedade de combinações. Aos domingos, por R$ 75, oferece um combo-família, com razoável diversidade de opções. Já a degustação, com sugestões mais autorais, sai por R$ 210.

No almoço, eu diria que fui parcialmente bem-sucedido: por um lado, uma boa milanesa com arroz e feijão; por outro, filet au poivre muito passado e com fritas bem abaixo do padrão. Mas comi bem no jantar, especialmente os pratos novos. Tais como ovo perfeito com creme de cogumelos (R$ 32); o ótimo pernil de porco assado com feijão-branco (R$ 58); e a repaginada degustação de foie gras (R$ 74), nas versões ao natural, ao Porto, defumado, com amêndoas e quente – uma entrada que pode e, mais do que isso, deve ser dividida.

O serviço, é verdade que anda meio desencontrado. E com aquela prática de abrir várias garrafinhas de água, mesmo quando não pedidas. Segundo um garçom, “a ideia é manter o copo cheio; mas a gente nunca cobra mais do que três águas por casal”. E faltou ao sommelier uma certa sensibilidade em captar a mensagem do cliente. Examinando a bem montada (e cara) carta, me interessei por um vinho que, por acaso, estava em falta; recebi uma sugestão pelo triplo do preço; perguntei sobre um segundo rótulo, ouvi que mais adequado seria um outro, também três vezes mais caro. Agradeci e fiz eu mesmo a escolha.

Mas não há contratempo que azede uma refeição que se encerra com sobremesas como a île flotante, o mil-folhas e outras (a degustação, para dois, custa R$ 44) preparadas com a expertise de Erick Jacquin. É nessa hora que se aciona uma espécie de geolocalizador e você constata: está mesmo na La Brasserie.

Por que este restaurante? Porque é um dos grandes franceses da cidade, em novo endereço.

Vale? Como se vê, a conta pode variar muito, conforme o menu. No geral, vale.

La Brasserie Erick Jacquin R. Pedroso Alvarenga, 1.088, Itaim-Bibi, 3826-5409.

Ficou com água na boca?