Paladar

Luiz Horta

33% é Bandol

03 março 2011 | 23:06 por Luiz Horta

Há imagens literárias tão bem construídas que nunca se descolam da sua cabeça. Uma coisa estilo cachorrinho-sino-salivação, de Pavlov. Falou a palavra Bandol e , na hora penso em pato. Porque num capítulo de O Homem que Comeu de Tudo, de Jeffrey Steingarten, ele dizia: “Acabei de enxugar uma garrafa de Bandol com um crocante confit de pato”.
Cito de memória, mas o espírito do texto era este: pele de pato tostadinha combina com vinho da pequena região do sul da França. Na hora que li o texto do crítico da Vogue, a boca encheu d’água por pato com Bandol, e continua até hoje assim. Por isso, quando fui provar as poucas garrafas da região importadas aqui, o confit não se afastava da cabeça, quase obsessão. Acabei bebendo os vinhos com uma barriga de porco pururucada para simular a ave. Deu certo. O forte lá é a uva Mourvèdre, complicada para amadurecer e com tendência à oxidação dos vinhos.
Bandol está na Provença, embora seja uma denominação separada, vinhedos influenciados pelo Mediterrâneo e com a volúpia carnuda e algo marinha inventadas pela romantização da bebida. Mas que são os vinhos sem um pouco de imaginação poética? Sonhamos viagens sentindo o cheiro de lavanda num campo à beira-mar quando na verdade esse cheiro vem de terpenos e coisas assim, chamadas de nerol e butanato de pentil, decifradas no laboratório.
Já tive grande emoção estética onde não esperava: a Rioja no outono, a cidade de Mendoza com o impacto nevado da Cordilheira no fundo. O sul da França, que idealizei tamanhamente por décadas foi o contrário: onde eu queria Paul Valéry, havia uma sucessão de estradas com caminhões pesados; onde eu queria Cézanne, áreas industriais e resorts de qualidade suspeita, no estilo “Van Gogh não dormiu aqui, mas chegou a fazer uma reserva”. Melhor esquecer o idílio geográfico e beber o que é, provavelmente, a melhor expressão francesa da Mourvèdre, depois dos Châteauneufs-du-Pape (há bons exemplos da casta na Espanha, onde se chama Monastrell). São levemente oleosos, têm muita suculência, são potentes e longos, embora com grande equilíbrio. O branco é uma boa curiosidade, mas o forte mesmo são os tintos e os rosés cor de ferrugem.
Os vinhos estão neste link.

Ficou com água na boca?