Paladar

Luiz Horta

A coisa está noir

20 fevereiro 2010 | 01:15 por Luiz Horta

Um caso de falsificação gigantesco de vinho, envolvendo a empresa Gallo (que comprou) e duas cooperativas do Languedoc (que venderam) deu uma abalada no nome, duramente reconstruído da região do sul da França, o imenso Languedoc.

Uma das fraudadoras é a Sieur d’Arques, que promove o leilão anual de Limoux. Ano passado estive lá participando.

Vi os pequenos produtores, seus vinhedos, sua sinceridade rural. Era bom provar o vinho das barricas e ver a expectativa dos vinhateiros quanto ao que eu pensaria de seus vinhos. Uma visita especial foi a Saint Jean de Minervois, onde um simpático ex-caminhoneiro com cara de rockeiro mostrou os vinhos. Ele tinha micro 1 hectare de plantação, que trabalhava com a mulher e fazia um muscat fantástico.

Não sou de acreditar na pureza apenas pela aparência, aquela coisa de bom selvagem, mas esta gente não rouba, tem orgulho de seu moscatel, não vai vende-lo como outra coisa. Claro que não foram eles, que nem sabem direito onde é a California, e nunca ouviram falar de Sideways. Muito menos um espetacular maluco como Rimbert, que faz meu querido Travers de Marceau, bolaria um estratagema para vender vinho falso. Para que? Ele acredita na sua Carignane, não vai apelidá-la de Pinot só para enganar. Quem faz vinho ruim é que precisa mascará-lo.

A diretoria das cooperativas, gente de gravata que não sabe nem mesmo se uva é vegetal ou animal, moeu tudo que sobrou e mandou bala. Quer Pinot? Temos. Basta engarrafar qualquer coisa tinta e mudar o rótulo, despachar e contar a grana.

Infelizmente a pena de 6 meses de xilindró foi atenuada para uma fiança de milhares de euros. Mas este pessoal merecia cadeia e beber o próprio vinho “Quelque chose Noir”. Fica o aviso: quando vir uma garrafa do Languedoc, de agora em diante, cheque a origem. Os produtores sérios não fraudam. O dano, entretanto, foi feito.