Paladar

Luiz Horta

A vertical de Amayna

10 junho 2011 | 09:35 por Luiz Horta

Sauvignon Blanc raramente rima com madeira. Mas quando dá certo resulta em vinhos como os de Manfred Tement, na Áustria, o mítico Didier Dagueneau, no Loire, e os Amaynas Viña Garcés Silva, do Valle de Leyda, no Chile.
Para o Paladar houve uma vertical, rara e um privilégio, com todas as safras desde 2003. O raio da sorte caiu duas vezes no mesmo lugar: como o período da visita coincidia com a vinda anual do consultor suíço da empresa, Jean-Michel Novelle, pude provar os vinhos com seus dois artífices, o enólogo oficial, Francisco Ponce, e o consultor, Novelle.
Figura bem peculiar, Novelle, que parecia ter acordado no momento da degustação (6 da tarde), despertou de vez no contato com os vinhos e se deliciou com a qualidade de sua evolução na garrafa. Não por acaso (e que menção curricular é esta!), trabalhou anteriormente com Dagueneau. Há um Amayna Sauvignon sem madeira, mas os provados, fermentados em carvalho francês de primeiro uso, mostraram a razão da escolha. A ideia surgiu por causa da estrutura e da acidez da fruta conseguida na região.
A escolha das barricas foi delicada – queriam pouca ou nenhuma presença de madeira. A opção foi pelas de Taransaud, pelo grão bem fechado, onde o mosto fermenta e estagia por um ano, com bâtonnages (quando as borras são revolvidas) diárias. A acidez é totalmente natural. O dia cinza e úmido da visita mostrava a influência decisiva nesse frescor: meros 14 km separam o Pacífico daqueles vinhedos.
Todos os Sauvignons em carvalho
O 2003 é bom, um pouco curto na boca, boa acidez, evolução discreta na garrafa. Faz lembrar no nariz um Grüner Veltliner austríaco. O 2004 tem toque de praliné e de marmelos frescos no nariz e deixa aparecer a madeira. Na boca é muito equilibrado, bem fino, fruta mais madura.
O
2005 é discreto no aroma, mas tem ótima mineralidade, a madeira sutil. É encorpado, mas delicado, quase mastigável, um dos meus favoritos. Ao contrário, o 2006 foi o que menos agradou. É saponáceo no nariz, algo de jambo, o único a ter traços exagerados das piores características aromáticas da Sauvignon. Pepinoso.
O 2007 (safra disponível no Brasil) foi meu segundo favorito, depois do 2009 e junto ao 2005. Tem um toque picante no nariz, algo de abacaxi em compota. A boca desmente a promessa de doçura, felizmente. Tem saborosa presença, acidez gostosa, madeira discreta. Está no auge, muito bom de beber e bem fino. O enólogo Novelle comparou-o a um grande Chardonnay da Borgonha. Não foi entusiasmo de produtor: as qualidades de foco e finura estão lá.
O 2008 está no momento de repouso, tudo adormecido, aroma e sabor. É curto na boca, o álcool se destaca, não encantou muito. O 2009 ainda está exuberante na sua juventude, aroma de figos frescos, pimenta-branca na boca, madeira por integrar. Promete muito e sua chegada ao mercado brasileiro merece a espera.
Novelle não escondeu sua preferência: “Gosto do 2009 porque sei como vai evoluir. O carvalho é muito sutil e tem toque de marmelo, de que gosto muito, sem nada de doce. Muito seco e muito puro”.
ONDE COMPRAR
Mistral – Tel. 3372-3400
À venda a safra 2007 Amayna Barrel Fermented (R$ 89,90)

Ficou com água na boca?