Paladar

Luiz Horta

A vertical de Pizzato Chardonnay

19 agosto 2011 | 00:53 por Luiz Horta

publicado no Paladar de 18 de agosto

Os mistérios do vinho brasileiro e sua dificuldade de se fazer conhecido… Anos atrás, acompanhei a inglesa Jancis Robinson e seu marido, o crítico de restaurantes do Financial Times, Nick Lander, ao restaurante Mocotó. Fui meio de intrometido, numa aventura inventada pela jornalista Suzana Barelli, que levou diversos vinhos nacionais para que os britânicos provassem.

Entre eles um agradou em cheio, um branco, sem madeira, com ótima acidez, límpido e metálico (mineral, mas com uns choquinhos na língua) como os melhores Chardonnays do mundo. Provavelmente agradou ao casal pela mesma razão que gostei: não tinha madeira e deixava a casta se exprimir livremente, sem maquiagem. Foi assim que encontrei e adorei o Pizzato Chardonnay.

Tais qualidades já seriam suficientes para listá-lo como um dos melhores brancos brasileiros. Mas na prova do Paladar – Cozinha do Brasil, a vertical de todas as safras mostrou outra virtude excelente: evolui bem na garrafa e tem prognóstico de longevidade. Apresentada pelo enólogo Flávio Pizzato, o público pôde se satisfazer com todos os detalhes técnicos. E como isso é importante! Saber, por exemplo, que fazem longas fermentações, em busca de mais expressão floral nos aromas. E que a primeira safra, 2005, justamente quando decidiram produzir um branco, tenha sido um ano muito quente, o que deu ao vinho um toque de praliné e brioche no nariz, como se tivesse passado por carvalho. Todas as safras estavam vivas, com estilo muito particular. Como enfatizou Flávio, “não queremos fazer vinhos chilenos ou argentinos, queremos um nosso”. A minha favorita foi a de 2009. E a de 2011 promete muito.

Todas as safras do Pizzato Chardonnay
O (2005) tem evolução elegante. A acidez não é muita, mas tem volume pelo tempo passado sobre as borras. Foi o do batismo de fogo, tudo foi experiência. O (2006) é mais curto e tem leve amargor final, um pouco de pimenta-branca no nariz e um pouco de álcool. O (2007) tem intensa acidez. Menos complexo, está em meio de sua evolução, merece esperar na garrafa. O (2008) é um pouco rústico, curto na boca, lembra os defeitos dos vinhos naturais, uma leve oxidação precoce. Foi o mais mal colocado, para meu gosto. O (2009), ao contrário, estava um acontecimento. Nariz muito floral, de rosas brancas, na boca, extremamente refinado, longo e elegante. Delicioso de beber e um perfeito vinho para ser colocado, às cegas, no meio de grandes Chardonnays e fazer derrapar os preconceituosos. Ótimo. O (2010) também é floral, mas está jovem demais. O (2011) promete ser dos grandes, já está bom de beber, ótima acidez, com corpo e bem longo.