Paladar

Luiz Horta

Adivinhe quem veio para o jantar – As crônicas mundanas de Glupt!

24 novembro 2011 | 06:49 por Luiz Horta

Fui jantar com um crítico famoso, Nick Lander, do Financial Times. Cheguei muito cedo pois o bistrô que ele escolhera, chamado Miroir, no 94 da Rue des Martyrs, em Montmartre, era perto para mim e ele vinha de Londres, de trem. Foi ótimo esperar. Deu para praticar o esporte intelectual de observação de hábitos em outras cidades, mais conhecido como orelhada das mesas do lado.

Nick Lander. Crítico do FT só permite fotos de suas meias de torcedor do Manchester United - Luiz Horta/AE
Luiz Horta/AE
Nick Lander. Crítico do FT só permite fotos de suas meias de torcedor do Manchester United

 

Constatação mais óbvia para nós, acostumados às brigadas-batalhões: a quantidade de pessoas no serviço. Duas moças davam conta dos 36 lugares. O chef, Sébastien Guénard, circulava entre cozinha e sala, conversando, cortando presunto, finalizando pratos e chefiando (sua tarefa principal). Mas chefiando quem? Dois ajudantes na cozinha do tamanho de um armário. E se tratava de um ex-sub de Ducasse no Aux Lyonnais!

Depois, a atitude dos comensais, que iam chegando e jogando os casacos uns sobre os outros, num amontoado único de abrigos e guarda-chuvas.

Mas o que nos interessa, enófilos que somos, vem agora: a relação com o vinho. Esmiucei a carta, li tudo, produtores, safras, preços, vinhos em taça e no final pedi um Jura Domaine l’Aigle a Deux Têtes, esperando que o nome não fosse uma promessa de ressaca. A garçonete abriu a garrafa, serviu a dose e só então lembrou de me mostrar o rótulo. Nada de rituais, provinha, assentimento com a cabeça, exame da rolha e ar de conhecedor; vapt-vupt, vinho como algo trivial.

E o melhor. Nas mesas ao lado, chegavam, perguntavam que vinhos havia, nem olhavam a carta, ouviam: “Tem um Arbois, um Pic Saint-Loup, um Rhône, um Nuit Saint-Georges”. Escolhiam pela denominação de origem, sem se interessar por nada mais, um vinho escolhido pela região. As taças? De vidro.

Quando Mr. Lander chegou, fez o mesmo que eu, conversou sobre vinho, escaneou a carta, perguntou se eu gostava de Morgon e foi de Lapierre 2010. A comida era ótima, sopa de castanhas com pedacinhos de porco, um peixe misterioso com legumes e tortinha de maçã com creme, queijos Saint-Nectaire, brie.

Nick Lander comentou sobre a notícia quente daquele dia, a escolha de Eric Asimov para novo crítico de restaurantes do New York Times. “Ele vai passar dificuldades, a demanda é insana, Nova York é um mundo demasiado grande e você não tem tempo para nada. E tem estrelas para atribuir, arte de desagradar a todo mundo ao mesmo tempo, ou, como dizia meu avô russo, você nunca está certo fazendo algo pela metade.” Contou que está escrevendo um livro sobre os grandes restaurantes do mundo, 20 escolhidos, com entrevistas com restaurateurs, que sairá no ano que vem. “Nesta edição ainda não entrará São Paulo”, sorriu se desculpando. Comentou sobre um novo brasileiro que abrirão em Londres: “Tomara que mais próximo do Mocotó que o equívoco anterior” (houve um Mocotó londrino, nada a ver com o da Vila Medeiros, que flopou com estardalhaço). Depois falamos brevemente do incrível dia em que ele cozinhou para Ferran Adrià (ganso selvagem) e lavaram os pratos juntos.

Encontrá-lo é sempre ótimo, verdadeiro cavalheiro, mas a história do vinho sem pompa me roubou a noite. Como Nick Lander nunca mostra seu rosto, só suas meias, tirei uma foto para confirmar que era ele mesmo, meias vermelhas de torcedor fanático do Manchester United. Não é difícil ser feliz, basta estar em Paris.

Ficou com água na boca?