Paladar

Luiz Horta

Às cegas em Berlim

09 agosto 2012 | 14:35 por Luiz Horta

Degustaçoes às cegas são sempre as mais instrutivas. sem ver os rótulos é onde a verdade aparece. Quem tem coragem de detonar um Latour sabendo do que se trata? Até especialistas são sugestionáveis pelo peso dos grandes nomes. Quando um vinho notável tropeça, alguém sempre ( costumo cronometrar os segundos até a frase ser pronunciada) diz: ” não é possivel que ele tenha perdido do uruguaio simplâo, esta garrafa deve ter sido estocada de modo errado”. Os hábitos, como os mitos e Bruce Willis, são duros de matar. Por isso, vale sempre provar com as garrafas ocultas e deixar que fluam as suspresas. O momento da retirada das coberturas de papel alumínio é uma delicia de epifania, descobrir que sabemos menos do que pensamos, ou viver curtas vitórias que não merecem medalhas olímpicas mas acariciam o ego: “acertei, o quinto era o cabernet chileno”. E a verdadeira recompensa: gostar e eleger o vinho mais barato no meio dos de 3 ou mais digitos. que alegria correr no dia seguinte e comprar uma caixa no supermercado!

Fiz anteontem, em Berlim, uma degustaçao às cegas heterodoxa, olhando e lendo os rótulos. E o resultado foi tão honesto, imparcial e surpreendente quanto qualquer outra. Comprei, propositalmente, garrafas de produtores desconhecidos. no arborizado bairro de Prenzlauer Berg, ver as etiquetas não fez diferença. Passei por acaso por uma boa loja de vinhos, em Marienburger Strasse. Não estava procurando vinhos, estava passeando pelas ruas e pensando em outras coisas, num raro período de hepato-férias, bebendo cerveja e pedalando quilômetros em bicicleta.

Depois de intensos dias no Douro, esses sim dedicados inteiramente ao vinho, queria só do ameno verão berlinense, em uma das cidades mais amáveis que já conheci. Como a parte vinícola da Alemanha é bem afastada de Berlim, deixara o mergulho na piscina sem bordas de Rieslings sensacionais para uma viagem futura e apenas turistava languidamente.

Mesmo quando ignoro o vinho, ele aparece. Entrei na loja e pasmei: por preços bem moderados, grandes châteaux de Bordeaux, ampla escolha de espanhois, portugueses, italianos e de todas as regiões francesas. Em um país produtor de grandes vinhos e com a Áustria ao lado, tinha me esquecido de que a Alemanha é um dos maiores importadores do mundo, há de tudo.

Decidi ali fazer um painel curto, simples, empírico e impressionista de Rieslings abaixo de 10 euros. comprei o Win & win von winning trocken pelo rótulo bonito, o Flick porque era um kabinett e o estilo me agrada e o Landgraf como piada com o nome do chef do restaurante Epice. O primeiro foi o mais caro, 9,50 € e os outros, 6 € cada.

Para manter o clima de descontração fiz a degusta de pé, na mesa da cozinha do flat que aluguei no bairro de Mitte, e depois tomei algumas (poucas) taças com pão de centeio, queijo munster e um embutido de nome quilométrico terminado em wurst. E saí com meu companheiro de viagens para comer um perfeito wiener schnitzel. Acho que nenhum deles está no Brasil, são vinhos simples, quase banais, para consumo local e imediato. Todos com boa acidez e ideais com lombo de porco e suas variações.

 

 

Ficou com água na boca?