Paladar

Luiz Horta

Bebendo minérios

09 outubro 2013 | 22:00 por Luiz Horta

Cada vez mais, uma nova pesquisa científica reafirma que a língua é incapaz de perceber as partículas minerais minúsculas contidas nos vinhos, a tão renomada, repetida e louvada mineralidade. Jeffrey Steingarten, crítico de comida da Vogue americana, fez um longo artigo, com o ótimo título de Salt Chic. À sua maneira minuciosa obsessiva, ele pesquisa sobre sais especiais. O sal negro do Havaí, o rosa do Himalaia e por aí afora. Viajou o globo, usou o melhor laboratório de pesquisas que tinha à mão, encheu a orelha do estoico e paciente Harold McGee (que publicou excelente artigo no New York Times sobre o tema, com a mesma conclusão) e outras peripécias que vale ler. Conclusão: há sais com mais ferro, mais magnésio, só que em proporção ridícula de tão pequena. Não há megatestador que perceba esse sabor. O que conta é o formato do grão de sal.

Voltando aos vinhos, certos terroirs são famosos pela mineralidade, e o Priorato, segundo o Oxford Companion to Wine, é um dos lugares em que o solo mais se nota no vinho, supostamente levado pelas raízes até os bagos como seiva. É uma linda imagem. Provavelmente, apenas poesia. Mesmo assim, sonhemos que estamos bebendo as escarpas do Priorato e seu chão de ardósia vermelha, dita licorella na região.

Procurei vinhos de preço amigável – o Priorato não sabe brincar com valores. Região festejada da Espanha, tem vinhos caríssimos, como o Clos Mogador, o Finca Dofí, o Clos Erasmus, o Clos Martinet. A sorte é que todos os produtores fazem outros vinhos e aí estão alguns dos bons em preço. Destaco três e conto uma curiosidade: o Vall Llach Embruix (feitiço em catalão) é feito pelo famoso cantor Lluís Llach, o Chico Buarque catalão, que se apaixonou pelo Priorato e se mudou para lá décadas atrás. O Camins del Priorat é de Alvaro Palacios (do Dofí) e o Menut do Mas Martinet. Todos com pedigree.

A uva símbolo da região é a Cariñena, tão vilipendiada por sua excessiva produção e intensa acidez, base de vinhos de baixa qualidade. O movimento de vinicultores que decidiu salvá-la do comum para os grandes vinhos usou uvas de velhas videiras (no Priorato, acima de 40 anos de idade), com concentração e baixa produtividade, devida ao solo paupérrimo em nutrientes da aridez do interior da Catalunha. Coadjuvada pela Garnacha e com a internacional Syrah, a Cariñena do Priorato ganhou fama, estimulando produtores do Languedoc para o mesmo caminho de valorização de sua uva malquista. Os vinhos provados, cortes com Cariñena, demonstram sua qualidade.

FOTOS: Divulgação

Camins Del Priorat 2010 – Muito bom
Belo vinho de Alvaro Palacios, a Cariñena domina, com 60% do corte, com Garnacha, Syrah e Cabernet Sauvignon fazendo o contraponto. Matador de sede, gostoso, longo. Palacios sempre no controle de seus vinhos. (R$ 144, Mistral, tel.: 3372-3400)

Menut de Mas Martinet – Muito bom
Nariz agradável de estábulo, como uma fazenda pela manhã. Na boca é rústico, mineral, um pouco curto, taninos ligeiramente proeminentes, precisam de um tempo na garrafa. Necessita aeração para arredondar. (R$ 82, Grand Cru, tel.: 3062-6388)

Embruix de Vall Llach 2009 – Muito bom
Nariz potente de frutas roxas, algo de figo seco, na boca é intenso mas elegante, com boa acidez vinda da Cariñena (30% do blend) amaciada e equilibrada por Garnacha e Merlot que aparecem em menor proporção, além de um toque de Syrah. (R$ 198, Ravin, tel.: 5574-5789)

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 10/10/2013

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