Paladar

Luiz Horta

Cabeça

23 novembro 2010 | 04:44 por Luiz Horta

Exposição sobre vinho e modernidade no San Francisco MOMA faz o cidadão mexer na caraminhola e pensar. Aproveitei e corrigi o tombo da memória, tinha trocado Morandi por Modigliani.

Diga-me o que bebes e te situarei na sociedade
[publicado no Paladar de 18 de novembro]
O vinho sempre apareceu na arte pois os artistas sempre gostaram de vinho. Foi representado nas mesas palacianas pelos grandes pintores da corte, como Velázquez, e na mão de gente comum, em grandes pileques festivos, nas cenas pastoris de Goya ou nos dramáticos noturnos de Caravaggio. Sempre como algo corriqueiro, cotidiano, junto do pão, de alguma fruta, um ou de outro queijo, um dos elementos das naturezas mortas. Um coadjuvante.
Ganha, aqui e ali, um pouco de protagonismo, vira motivo para fauvistas, cubistas e expressionistas. Aparece pelas mãos de Hockney, Lichtenstein, Kitaj, Hamilton, vira um assunto. Querido, mas incompreendido, sempre simbolizando a força do álcool ou o puro formalismo de taças e garrafas, como nos quadros de Modigliani Morandi. Para a arte, o vinho parecia ser apenas um objeto sobre uma mesa.
O que o curador Henry Urbach faz nesta mostra é virar tudo ao contrário. Para ele, o vinho, pelo menos nos últimos 30 anos, virou uma cultura específica. Se eu dissesse isso, como colunista de vinhos, pareceria de insuportável pedantismo e arrogância. Mas pelos caminhos teóricos de Urbach parece bem plausível.
A tese fascinante da exposição é de que há uma produção de conhecimento e de sentido possível apenas no mundo dos vinhos, com linguagem própria (taninos, carvalhos francês e americano, retrogosto, são exemplos).
O ponto mais eloquente é o da arquitetura. Não é mais um predinho estilo galpão em que se estocam barricas, mas grandes obras arquitetônicas desenhadas levando em conta a funcionalidade para a produção da bebida, com imensos atrevimentos estéticos.
Bastam os exemplos de três das obras apresentadas no museu, curiosamente todas na região espanhola da Rioja: Frank Gehry para Riscal, Santiago Calatrava para Ysios e, o susto completo, a mais doidona das arquitetas contemporâneas, Zaha Hadid para a mais old school das casas riojanas, López de Heredia-Viña Tondonia.
O universo cultural vinífero, segundo Urbach, não para na arquitetura. Está ligado ao amplo campo da formação e determinação de gostos – este o seu aspecto mais importante.
Vinho é escolha, conhecimento e determinação de posição social. Funcionaria para o século 21 como a moda para o 20. Quem nunca se sentiu deslocado na presença de um sommelier, levante a mão. Quem nunca se sentiu super descolado sabendo escolher o vinho certo em um imenso menu, atire a primeira taça. O vinho eleito tornou-se tão significante quanto a roupa que se usa.

Ficou com água na boca?