Paladar

Luiz Horta

Chubut vem aí

26 março 2009 | 05:06 por Luiz Horta

Ontem fui ao almoço de apresentação dos vinhos de Carlos Pulenta. Este sobrenome é importantíssimo em Mendoza, pois representa uma família com grande tradição vinícola.

A curiosidade é que os vinhos Vistalba serão os primeiros importados por uma vinícola brasileira, a Valduga, que passa a ter um braço importador.

Carlos Pulenta é um homem simpático e contou ao pé-do-ouvido que está plantando um vinhedo em Chubut. A ficha custou a cair. Até que eu arregalei os olhos: “mas isto é na Terra do Fogo!”. Ele fez que sim com a cabeça. “Serão os vinhedos mais austrais do mundo. Pinot Noir, daqui uns cinco anos…”.

Meu amigo Nico Ravel, que é cheio de entusiasmo, cuidou de entrevistá-lo e comentar os vinhos, enquanto eu estava ocupado com assuntos mais dramáticos para mim (a edição das verticais que estão hoje no Paladar e deram um trabalhão). É bom ter amigos e o Glupt! agradece e reproduz abaixo o ping-pong e as notas de degustação dele.

Entrevista: Carlos Pulenta
(por Nico Ravel)

Como o senhor define sua linha de produção?
Os vinhos hoje estão mais jovens, assim como as pessoas. É preciso muita fruta e potência, o que só a madeira pode conferir. Trabalhamos para produzir vinhos com jovialidade, pois é disso que as pessoas precisam.

O senhor fala em jovialidade como modernidade? Como enxerga as bodegas argentinas mais tradicionais, como Weinert e Lopez?
Veja bem, a Weinert produz vinhos velhos, com método de produção antigo. É muita tradição para pouca produção. Seus vinhos ficam em barricas enormes e velhas, com muita oxigenação, logo, o vinho fica velho. Hoje, nós buscamos tintos com taninos, complexidade e corpo… e isso só ocorre na barrica nova. Utilizamos um método com lâmina d’água entre as paredes de cimento, que nos possibilita controlar a temperatura de fermentação
[Esta maneira de ver a vinicultura que considera ultrapassada não o impediu de falar com admiração de Raúl de la Mota, que elogia como o “mais notável enólogo que a Argentina tem” e que fez alguns grandes vinhos na Weinert].

O Senhor Catena foi considerado o “nome do ano” pela revista Decanter… (não consegui terminar a pergunta).
Que sorte! O Catena tem bons vinhedos. A Argentina tem bons vinhedos. Somos o quinto maior produtor do mundo.

Sim, mas o senhor acha que a Catena Zapata… (mais uma vez).
O Catena é um grande homem! Muito trabalhador.

Bem, quanto ao consumidor brasileiro, o senhor acha um público já educado para o vinho?
Educado é… isso não implica bem ou mal educado… (risos)… Lógico, na Argentina tomamos vinho desde criança, isso gerou um hábito muito maior. Exceto a Inglaterra, eu desconheço um povo “bem educado” em vinhos que não os produza. O povo bebe sua própria cultura. Mas o interessante no Brasil é que há muita curiosidade. Não produzir levou o país a importar. Na Argentina, por exemplo, não se sabe muito sobre os vinhos do velho mundo… poucos sabem o que é um Porto, lá. Aqui as pessoas bebem de tudo. Eu aposto que você já bebeu mais vinhos diferentes que eu.

Falando em velho mundo, o que o senhor acha da Malbec do Cahors?
Não sei se gosto daquela Malbec. Tenho pouco julgamento sobre ela. É muito distinta da nossa e talvez nem seja a orignal, por causa da philoxera. A Malbec hoje é argentina.

E é melhor?
Ué, quando passar em Mendoza eu te mostro…
(Um diplomata… já tenho vertical garantida em julho, quando for a Mendoza… mal sabe ele.)

Os vinhos degustados:

Tomero Sauvignon Blanc 2007 – vinho simples. Notas básicas de Sauvignon Blanc, como pêssego e grapefruit. Muito frutado. Na boca, acidez inconsistente e rápido. (R$45)

Tomero Pinot Noir 2007 – notas modernosas de Pinot novo-mundano: muito corpo, muita fruta e um tanto alcoólico. Um Pinot de pouca inspiração. (entre R$55 e R$70)

Tomero Malbec Gran Reserva 2006 – Malbec clássico. Aromas violáceos e boa fruta madura, como ameixas e amora. Acidez bem controlada, mas ainda fechado (mesmo após meia hora na taça). Muito encorpado, boa madeira e promessa de muita longevidade. Um vinho correto, se custasse R$70 (preço ainda não definido, mas bem mais que R$70)

Vistalba Corte B 2004 (50%Malbec, 37% Cabernet Sauvignon e 13% Bonarda) – Já muito mais interessante que a linha Tomero, tem o nariz mais interessante de todos. Terroso, com notas de tabaco e algo de couro molhado. Ainda mostra compota e geléia de frutas vermelhas. Na boca, decepciona um pouco. Muito ligeiro e ainda jovem, porém macio e equilibrado. (R$120,00)

Vistalba Corte A 2004 – um vinho de muita estrutura, com bom potencial de envelhecimento. Revela toda a Malbec concentrada, bomba de frutas, e ainda notas provenientes da madeira. Mais complexo e potente. Mais uma vez, muito jovem e fechado. (R$220)

Ficou com água na boca?