Paladar

Luiz Horta

Coisas graves acontecem no vale do Uco

26 julho 2012 | 07:00 por Luiz Horta

Jean-Jacques Bonnie tem jeito de tenista escandinavo, é de origem belga e fala português perfeito, com forte sotaque lusitano, aprendido da ama portuguesa na infância. E é produtor de vinhos. Em menos de um ano estive com ele em três países diferentes, bebendo seus tintos e brancos. O curioso é que só consegui prová-los todos ao mesmo tempo em São Paulo. Bonnie está sempre em fase de colheita e vinificação, pois enquanto na França os líquidos descansam nas barricas, na Argentina é tempo de vindima, e vice-versa.

Capturei-o, junto a Helô Lupinacci, editora-assistente do Paladar, numa escala entre Mendoza e Bordeaux para almoçarmos. Ele é da família proprietária de dois châteaux em Bordeaux, o Château Malartic de Lagravière – Grand Cru Classé de Grave e o Château Gazin Rocquencourt, onde mora com a mulher, Séverine, e os filhos, em Pessac-Léognan. Os bordeaux já são tradicionais, antigas propriedades trabalhando hoje de modo impecável.

A novidade, a teteia para os Bonnies, entretanto, é a bela vinícola DiamAndes, uma das mais impressionantes que conheço em Mendoza. A cordilheira quase entra sala adentro e no dia em que almocei lá tinha caído uma nevasca na noite anterior. A paisagem ofuscava, era de sair para esquiar, se eu praticasse tal temeridade. Os Bonnies foram os mais recentes franceses a terminar a bodega, no coletivo do Clos de los Siete – projeto capitaneado pelo enólogo Michel Rolland que reúne sete produtores bordaleses em um belo pedaço de terra no Vale do Uco.

É extraordinário um importante produtor bordalês fazer, com os mesmos cuidados e qualidade, vinhos argentinos. E não é exagero traçar um paralelo entre as garrafas dos dois hemisférios.
Quando fui para a prova, pensei: os argentinos vão tomar um chocolate dos franceses, vão parecer doces e pesados, desequilibrados. Pois foi um belo empate.


Grande argentino
O imponente DiamAndes Gran Reserva (R$ 165, na Grand Cru, tel. 3062-6388) tem tantas qualidades que lamento a prova não ter sido às cegas. Eu hesitaria bastante em apontá-lo no mapa. É solene, delicado, presente e longo na boca, com um nariz muito fino. Não sei se será longevo (parece que sim, era um 2007 e estava vigoroso, com anos pela frente), mas certamente dá imenso prazer. E ainda tem bom preço, por ser relativamente desconhecido. Quando começar a ganhar prêmios, será um dos grandes argentinos, fácil. Chegou onde a Argentina quer chegar: um grande vinho com qualidades francesas, sem perder o traço local. Está no mesmo nível de outros favoritos da região – Catena Zapata Viñedo Nicasia, um Malbec single vineyard, e seu vizinho, o Alfa-Crux blend de O. Fournier.


Afinados
Os brancos não desafinam. Afinal, Bonnie vem de uma região notável pelos brancos. O DiamAndes de Uco Chardonnay (R$ 95) é amadeirado no nariz, mas não repete o carvalho na boca e é fácil de beber. A surpresa foi o Viognier (R$ 95), ainda na segunda safra engarrafada. Demonstra, de novo, que a uva tem futuro na Argentina.


Malbec com elegância
O DiamAndes de Uco Malbec (R$ 95) tem corpo, acidez, estrutura delicada e muita tipicidade. Mostra a matéria-prima exemplar que conseguem na propriedade argentina


Um bom começo
E resta falar do Perlita (R$ 65), algo como o segundo vinho do “château” mendocino de Jean-Jacques. É o moderninho, de camisa listrada (palavras do próprio produtor, que diz que a referência para a criação do rótulo está nos vidros de perfume) e feito para exibir a exuberância da fruta. É para beber logo, fresco, até frio, e serve como caminho para se chegar aos senhores mais fechados que são os demais tintos – e como apresentação a uma outra forma de beber Malbec.


Faça a prova
Não é exagero dizer que Bonnie conseguiu fazer um Graves de Uco. Uma sugestão provar, às cegas, o DiamAndes Gran Reserva (R$ 165 na Grand Cru) com o segundo vinho do produtor em Bordeaux, o Le Comte de Malartic (R$ 180, também da Grand Cru). No Argentino, 70% Malbec e 30% Cabernet Sauvignon, a Malbec faz o papel da Merlot no corte do francês (50% Merlot, 45% Cabernet Sauvignon e 5% Cabernet Franc). Minerais e longos, mostram como um bordalês pode influenciar e ser influenciado pelos Andes.

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