Paladar

Luiz Horta

Cuidado! Estou pensando

19 fevereiro 2010 | 01:54 por Luiz Horta

Texto que saiu hoje no Paladar e me queimou os neurônios restantes e que conheço pelo nome (Dunga, Mestre, Feliz, Atchin, Soneca etc) para escrever:

A busca da imperfeição ideal

A boa notícia: vinho é uma das coisas em que o defeito pode ser bom. No momento em que a tecnologia foi tão longe que é possível produzir centenas de garrafas rigorosamente idênticas, o gosto reagiu. O primeiro vinho tecnicamente impecável impressiona. Tudo balanceado e no lugar, a natureza e o acaso eliminados totalmente, rigor como num cálculo de balística por computador. A segunda garrafa começa a cansar e daí em diante é o tédio. O que eu chamo, exagerando no beletrismo de “país das sombras iguais”.

Um tempo atrás participei em Vic, perto de Barcelona, de uma degustação que mudou meu modo de pensar. Um painel com Nicolas Joly, o “senhor biodinâmica”, Marie-Louise Banyuls, ex-Revue du Vin de France e atual compradora chefe da Lavinia, Ricardo Palacios, da região do Bierzo (sobrinho de Álvaro Palacios, pioneiro do Priorato) e um professor de química da Universidade de Valência.

O professor, que deveria representar a ciência e, portanto, a busca da exatidão, era o mais atrevido. Levou vidros de defeitos. Catástrofes em estado puro, concentrados de monstruosidades, garrafas de Pandora. Cheirávamos o aceto que aparece na acidez volátil, horror! Era preciso tapar o nariz, fugir. Depois a oxidação, como se fosse um trilho de trem velho. A levedura bretanomices era como enfiar o nariz numa pocilga. Tudo insuportável. Em seguida, os vinicultores e a jornalista mostraram vinhos com tais defeitos, mas numa escala de temperinho, acidentes. Ou, dizendo em outras palavras: vinhos não robóticos, feitos com a verdade das coisas. A melhor aula do mundo.

Sabem quem representava a oxidação, na degustação? Um espetacular Selosse Substance, champanhe de exceção, raro e desejado. O traço oxidativo discreto, dava uma profundidade olfativa e gustativa ao vinho. A bretanomices, aparecia num vinho de Palacios, e virava uma memória amável de couro e pasto. Os fungos que cheirados antes eram um mofo picante e desagradável reapareceram gloriosos como botritis no próprio Coulée de Serrant, o maior vinho de Monsieur Joly. Todos pequenos defeitos que se tornaram virtudes.

Ficou difícil entender? Pensemos um paralelo com a fotografia. Câmeras digitais fazem tudo sozinhas, infalíveis. Por que então tanta gente gosta de lomografia, máquinas vagabundas de plástico, lentes que distorcem, revelação e ampliação em papel, analógicas, precárias? Pela imprevisibilidade, a beleza do acaso e a qualidade luxuosa do artesanal.

O vinho tecnológico é para consumo em escala. A arte sempre vai estar no que anda perigosamente na borderline da aventura, no reino da uva verdadeira, na calibragem complexa do defeito.

O teórico alemão chamado Hans-Magnus Enzensberger dizia, no final do século 20, que o luxo do futuro não seriam iates, helicópteros ou ouro. E sim água pura, ar fresco e tempo livre. Eu ampliaria: incluiria todos os produtos artesanais, no que a palavra tem de melhor, a feitura realmente manual, com qualidade. A artesania permite o aparecimento do desigual. Tal imperfeição é parte do prazer, também nos vinhos.

Ficou com água na boca?