Paladar

Luiz Horta

Dando bolo na realeza

10 março 2011 | 22:44 por Luiz Horta

Não é nada comum receber um convite para almoçar com um príncipe. Mais raro ainda é recusar. E foi o que fiz, lamentando a confusão de dias e horários. O príncipe Robert de Luxemburgo, tataraneto de Clarence Dillon, banqueiro americano que comprou, 75 anos passados, um château de Bordeaux, esteve aqui para apresentar seus vinhos de linha mais popular. Como o Château em questão se chama Haut-Brion, dá para imaginar que os produtos mais simples guardam grande limpidez, elegância e toque de fineza especial.
A iniciativa é parte de um esforço, cada vez mais bem sucedido, por parte dos bordaleses, de dar uma espanada na sua imagem de ultra esnobes produtores de vinhos inatingíveis para o bebedor comum. Já estiveram visitando o Brasil, com o mesmo propósito, os jovens do grupo Oxigène, trazendo uma cara modernete aos vetustos clarets. Depois foi a vez de Jean-Guillaume Prats, do Cos D’Estournel, que apresentou os Goulées: branco e tinto. E a organização interprofissional dos produtores de Bordeaux promoveu bem-sucedidas degustações de vinhos abaixo de R$ 100. Com os Clarendelles (chamados assim em homenagem a Clarence Dillon) repete-se, parcialmente, o que aconteceu com os Goulées. O branco é excepcional, cheio de frescor e com bom preço. Já o tinto peca por tentar ser fácil demais para o Novo Mundo e arrisca-se a perder a tipicidade. Para que comprar um Bordeaux que se parece a um chileno mais barato? Entretanto, pela estirpe, merecem o benefício da dúvida. Vamos ver como envelhecem.

Não são Haut-Brion, mas têm genealogia
O Clarendelle Blanc, blend de Sauvignon e Sémillon, com toque de Muscadelle, foi o melhor da série. Muito contido no nariz, com leve toque cítrico e ampla boca cheia de acidez e mineralidade, foi delicioso de beber e é um belo vinho (R$ 105). O rosé é fino, bem equilibrado, evita o excesso de amargor e taninos que costumam tornar tais vinhos pesados (R$ 43). O tinto, do qual se espera ter uma grande expressão bordalesa, é bom sem encantar, embora a discreta participação da Cabernet Franc (8%) traga uma boa vivacidade à acachapante Merlot (80% do corte, completado por 12% de Cabernet Sauvignon). É gostoso, tem boa acidez, mas precisa ganhar complexidade com o tempo (R$ 105). A curiosidade fica para o Amberwine, o vinho doce botritizado, com nariz sedutor, bem típico, exuberante. Na boca é mais doce que ácido, o que decepciona um pouco (R$ 146).
Onde comprar
Grand Cru
Pelo site ou pelo tel.: 3062-6388

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