Paladar

Luiz Horta

Desocidentado

12 fevereiro 2010 | 03:04 por Luiz Horta

“Ele saiu de casa confiante, ia fazer mais uma refeição simples, sem ter que pensar sobre o que comia”, eu poderia narrar assim o roteiro do meu programa de ontem.

Quer coisa mais reconhecida e conhecida que a comida americana? Era o que eu pensava, vou lá no meu quintal, como aquilo da mesma maneira que faço um sanduíche em casa. Perigo! Perigo! Quando me sinto mais auto-suficiente é que o tapete escorrega mais e o tombo é maior.

Fui ao Diner 210 e fiquei grogue. Olhava o cardápio, não entendia nada. Quiabo frito, popcorn shrimp, piggyburger…onde toda a minha empáfia de velho amante de jazz, leitor de décadas da New Yorker e do New York Times foi parar? Cadê o que eu sei, onde está meu chão?

Até corei quando o garçom fez perguntas sobre como queria minhas onion rings? “Como eu quero? Sei lá…do jeito da casa”, implorei ganhando tempo e afetando uma certa surdez estratégica.

Descobri que, oh estranho produto cultural sou, fico mais confortável num japa que num diner. O que me salvou foi o vinho, um rosé delicioso, geladinho e que eu sabia o que era: um vinho. Sabia pedir, sabia beber e sabia comentar. Mesmo ele era traiçoeiro, esquivo, tinha uma pegadinha, era de Sangiovese e da Califórnia!

A verdade é que meus Estados Unidos são de papel, são leitura. Estive a última vez em Nova York em 1980, voando pela Panam. Confrontado com o país real, mesmo que relido pelo Benny Novak aqui no bairro, perdi ridiculamente o rumo. Os Estados Unidos são tão remotos e desconhecidos para mim quanto, digamos, Madagascar.

Voltarei, enfrentarei esta terra incognita, esta América que eu Colombo doidão, achei que tinha descoberto por colocar o pé numa ilhota.

E os camarões pipoquinha eram fantásticos.