Paladar

Luiz Horta

Dessa vez não sofri

15 maio 2013 | 23:29 por Luiz Horta

Prefiro a existência virtual à física. Gosto de escrever, mas detesto falar em público. A primeira degustação que dirigi, alguns anos atrás, foi um sofrimento prévio enorme, dias pensando que o assunto terminaria e o tempo sobraria. E minha voz fraca, não chega lá no fundo do auditório e preciso usar microfone, onde acabo produzindo ruídos estranhos de gargarejo. É comum, no meio da prova, cheirar o microfone em lugar da taça e fazer papelão. Apesar disso, passada aquela degustação, ganhei mais confiança e fiquei menos travado diante da plateia.

No 7.º Paladar – Cozinha do Brasil participei da aula Como Escrever sobre Vinho. Na verdade, foi mais “como é feita uma coluna Glupt!”. Para me garantir, destaquei uma região que conheço bem: a Rioja. Elegi somente os Reservas. Escolhi os vinhos, que foram comprados e servidos às cegas, como habitualmente faço. Os participantes inscritos eram amigáveis e interessados, generosos também por fazerem boa cara para minha pouca prática de palco. Fiquei lá na frente, sem muito conforto mental.

FOTO: Tadeu Brunelli/Estadão

Os vinhos tiveram desempenho bem significativo, todos estavam corretos, embora dois fossem menos brilhantes que o esperado. Analisamos a tipicidade, aquelas qualidades que mostram que são de onde vieram, estavam lá os traços que Saul Galvão chamava “DNA da Rioja”: a uva Tempranillo, só ou em corte, com seus aromas de tabaco, a presença notável de carvalho, em geral americano e bem integrado, a acidez saborosa e o equilíbrio.

Os participantes votaram nos seus prediletos. Dois ficaram empatados em primeiro: o Heras Cordón Reserva 2005 (R$ 144, Grand Cru Importadora, tel.: 3062-6388) e o Viña Tondonia Reserva 2001 (R$ 237, Vinci, tel.: 3130-4500). Depois veio o Viña Salceda 2005 (R$ 237, Mistral, tel.: 3372-3400). Como o vencedor aparece com destaque e sempre coloco duas ou três garrafas adicionais ao lado, pedi que escolhessem qual seria a destacada. Foram muito sensatos, eu tinha contado que o decano da família López de Heredia, os geniais produtores do Tondonia, morrera no mês passado e eu pretendia dedicar uma coluna a ele, optaram então por destacar o Heras Cordón e falar depois dos vinhos todos da vinícola dos Tondonias. O Heras Cordón surpreendeu de fato, bem elegante, taninos finos, muito expressivo. Gostei pessoalmente do Viña Salced, mas não entrei na votação, estava muito bom, com taninos um pouco mais duros. Na foto, aparece um vinho extra, uma surpresa que servi no final. Um Cabernet chinês, que ninguém adivinhou, claro. Era decente e foi um bom exemplo de como incluo estas esquisitices na coluna. Depois de tantas taças (eu falei para cuspirem, mas não vigiei se me ouviram…), ficamos batendo um papo instrutivo para mim sobre o que os leitores esperam. Não sofri, quero repetir.

Vinho chinês não veio para brincar
Comprei o Cabernet da China na enorme loja de departamentos berlinense KaDeWe, por 7,90 euros. Achei que era só pegadinha. Na aula, foi adequado, taninos secantes, corpo médio. Veio após os Riojas, coitado. Mas é vinho e não uma piada.

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