Paladar

Luiz Horta

Deu branco no ouriço

20 fevereiro 2013 | 21:48 por Luiz Horta

Tem vinho para tudo, embora nem tudo precise de acompanhamento de vinho. Estamos em um momento meio maníaco, como se precisássemos de vinho no banho, vinho com pipoca, vinho para ver futebol e outro para eleição papal.

Harmonização se tornou uma palavra curinga, quase cacoete, perdeu o sentido. Gosto da máxima, acho que de Hugh Johnson: olhe a região e o que há para comer com o vinho que produzem e lá está a harmonia criada pela natureza. Harmonizações têm tornado as refeições geradoras de ansiedade em lugar de oportunidades de prazer.

Recuso a excessiva cientifização das combinações de comida e bebida. Tem dias de só beber uma coisa e relaxar. A troca sem fim de taças e estilos de vinho fica enfadonha, todo mundo tenso, “será que o branco barricado vai dar certo com meu suflê?”. O pior que pode acontecer é dar errado, então é só abrir outra garrafa ou tentar outro dia. Nunca é o apocalipse. Mera série de tentativas e erros.

Feito o desabafo, passo ao que chamei teoria geral do descompromisso, inventada no embate entre vinhos e ouriço.

Levei três garrafas para o restaurante e depois acrescentei duas outras em outro jantar. Podia pedir um saquê; há tantos estilos da bebida, que é bem próprio para comida japonesa (a regra de Johnson de novo). Já foi até assunto de uma capa do Paladar. Mas me lembrei, rindo, da boutade perfeita de Saul Galvão: “Sushi com saquê é pleonasmo de arroz”. E nem tudo é sushi e arroz na cozinha japonesa.

Na degustação feita para a matéria de capa sobre uni comemos quase nada de arroz, um único bolinho. Logo, os vinhos cumpriram o que se esperava deles, uns mais, outros menos. Nenhum ficou horrível, apesar da minha aposta original, o Jerez Manzanilla, ter sido o menos entusiasmante. O que funciona de verdade com o marinho, quase maresia, do ouriço? Branco bem ácido com alguma doçura residual presente.

LEIA MAIS: E aí, vai ouriçar?

Não era o que eu previa, mas foi o que a língua exausta me disse: um alívio para o mar.

O Chablis, elegante, foi ótimo com os frutos do mar, crus ou cozidos levemente, com sushi e com pratos com ovos. Com uni dependeu do prato, excesso de salinidade é ok, porque Chablis é mineral, mas o iodo atrapalha um pouco seu desempenho.

O leve, refrescante e frutado espumante de Moscatel, coisa que eu acho uma grande vocação brasileira e estou provando para outra coluna, foi muito bem. Era doce e com baixo teor de álcool e agradou bastante na boca.

O Jerez foi chocante. Não combinou, apesar de ser fácil com frituras e peixes no estilo espanhol, lulas fritas; ficou bem só com o tempurá. Quem reinou foi o Riesling, acidez focada e ligeiríssima doçura que apareceu em contraste com o sal e aguentou até o wasabi.

Não fiquei totalmente convencido, reforçando o que disse no início, não era um dia para vinhos. Melhor mesmo seria chá, litros de chá-verde, que amacia e acaricia a língua fatigada.

Bossa 4 Moscatel – Bom
Hermann
Uma boa novidade, vinho elaborado para a importadora Decanter, com todo o frescor da Moscatel. Leve, mineral e doçura certa. Com 7% de álcool, é uma delícia e custa pouco (R$ 25, Decanter, tel. 3073-0500)

Mont de Milieu 2009 – Muito bom
La Chablisienne
É o mineral do grupo, foi bem com frutos do mar. Boa acidez, longo, cheio de frescor, é coisa séria. Fácil
de beber (R$ 120, Interfood, tel. 2602-7255)

Riesling Herrenweg 2009 – Muito bom
Domaine Barmès Buecher
Alsaciano típico, é o que melhor se deu com os ouriços. Boa evolução, aroma melífluo, acidez e açúcar em equilíbrio e corpo refinado (R$ 90, Casa Flora, tel.: 2842-5199)

La Bota de Manzanilla Pasada – Excelente
Equipo Navazos
Era meu trunfo, um vinho magnífico dos detetives do Jerez. Mas não sabe brincar, e ouriço também não. Não
se entenderam, apesar de o vinho ser um favorito. Sem importador no Brasil

>> Veja todas as notícias da edição do Paladar de 21/2/2013

Ficou com água na boca?