Paladar

Luiz Horta

Dilema: levo ou degusto?

16 agosto 2012 | 18:04 por Luiz Horta

Aproveitei uma viagem ao Douro, que começo a contar na coluna da semana que vem, para provar excentricidades de Dirk Niepoort. O produtor é um irrequieto criador. Podia ficar tranquilamente fazendo seus grandes e premiados portos e douros de mesa, mas adora inventar problemas. E como resolve bem tais problemas! Na noite que passei no Porto, vindo de Pinhão, cometi a imprudência de mostrar interesse em degustar seus “projectos”, vinhos ultra-autorais ou feitos em parceria.

Por que fui provocar o furacão?! Recebi 17 garrafas com todas as novidades, que talvez nem cheguem ao Brasil, elaboradas como experiência e coisas que tais. O dilema ficou: carrego tudo para beber com calma (pagando monumental excesso de bagagem) ou abro no quarto e degusto, tomo notas e comento com o paladar partido por deixar os tesouros para trás?

Prevaleceu a racionalidade (coisa rara em mim) e optei pela prova e o desapego. O hotel deve ter tido o staff mais feliz do mundo no dia seguinte, com 16 garrafas para festejar (uma, a do excelente Charme 2010, bebi no ótimo restaurante Café Astoria, em que o chef consegue a delicada tarefa de mexer em clássicos sem descaracterizá-los, como o bacalhau com natas, o polvo à feira e o pudim do abade de priscos, com toque moderno). Dos outros vinhos, descrevo aqui os destaques. A soma de Dirk e Telmo Rodríguez resultou no Omlet; provei dois, 2008 e 2009. Telmo usou velhas videiras de Touriga e Tinta Roriz, com Sousão e Alicante Bouschet. O 2008 tem toque medicinal e rusticidade, o 2009 é elegante, uma curiosa soma ibérica de sabores (afinal a Tinta Roriz é uma das uvas que Telmo melhor conhece, pois se chama Tempranillo do outro lado da fronteira).

O Ladredo é o contrário: Niepoort fazendo vinho na Ribera Sacra, dentro da Galícia, em dupla com Raúl Pérez, um frutado e guloso tinto de Mencia. O Niepoort Navazos já conhecia e admirava, é o resultado de uma provocação feita por Jancis Robinson ao Grupo Navazos, dos jerezes cult “La Bota de…” e a Niepoort: fazer um jerez não fortificado com a Palomino. É espetacular (lá no fundo, talvez na imaginação apenas, um tracinho ajerezado e oxidativo).

A maior surpresa veio dos vinhos que tinha menos vontade de experimentar: um Porto branco e o Moscatel fortificado. O Moscatel é um Sauternes do Douro. Nem o site nem o rótulo dizem, mas posso jurar que tem botritis ali, grande equilíbrio de doçura e acidez, uma pequena obra-prima que merece importação. E Porto branco, que vejo sempre com preconceito, ganhou dele uma versão Tawny 10 anos. Quase tentei rearrolhar a garrafa e carregá-la de qualquer jeito, mesmo com o risco do derramamento sob pressão aérea. Foi o vinho que mais doeu deixar para trás.

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