Paladar

Luiz Horta

Dois momentos de Chile

06 novembro 2013 | 15:51 por Luiz Horta

Aconteceu um verdadeiro festival do vinho chileno aqui, uma degustação às cegas e outra de safras históricas, ambas conduzidas por Patricio Tápia. Infelizmente, não pude ir, mas pedi ao jornalista, grande conhecedor de Chile e Argentina, Marcel Miwa, presente aos dois eventos, que fizesse um relato para o blog. Marcel assinou, recentemente, uma capa do Paladar sobe as mudanças no mapa classificatório das denominações de origem no Chile.

Eis aqui a opinião dele (que coincide muito com a minha).

Na semana tivemos duas grandes apresentações de vinhos do Chile (talvez esteja aí um dos ingredientes para o sucesso dos vinhos deles por aqui), conduzidas pelo especialista chileno Patricio Tapia.

A primeira foi realizada pela importadora Casa do Porto e o painel reuniu 19 amostras de grandes tintos onde a Cabernet Sauvignon era dominante. Provamos vinhos de safras que partiam de 1999 até 2010, do Aconcagua ao Maule, alguns varietais e outros com até 15% de participação de outras castas.

A degustação transcorreu às cegas e como se pode imaginar ainda é difícil identificar a zona de origem de cada vinho, principalmente pela heterogeneidade das amostras. Para entrar no tema da nova divisão das Denominações de Origem chilenas, foi muito mais fácil identificar se os vinhos eram dos Andes ou Entre Cordilheiras (não existem muitos Cabernet Sauvignon da Costa, devido ao clima muito frio), que um dos vales de norte à sul.

Além da mera questão estatística, de leste à oeste era 50% de chance de acertar, um vinho mais potente, por exemplo, poderia ser do Maipo central, Aconcagua, Colchagua ou até Maule ou Cachapoal. Já de leste à oeste, o “check list” para saber sua origem é simplificado: (?) álcool, (?) notas herbais, (?) taninos austeros (?) menor acidez = Entre Cordilheiras; enquanto (?) aromas abertos, (?)taninos finos, (?) textura mais untuosa, (?) maior acidez, podem indicar vinhos dos Andes. Ainda assim, há a questão da enologia, utilização de barricas de carvalho e estilo do produtor.

Lista dos vinhos degustados:
1 Ribera del Lago Cabernet/Merlot 2006 (Maule)
2 Erasmo 2007 (Maule)
3 Casa Donoso Magia Negra 2009 (Maule)
4 Miguel Torres Manso de Velasco 2009 (Curicó)
5 Le Dix de Los Vascos 2002 (Colchagua)
6 Altaïr Sideral 2005 (Cachapoal)
7 Concha y Toro Marques de Casa y Concha Limited Edition 2007 (Maipo)
8 Willian Fèvre Chacai 2009 (Maipo)
9 Haras de Pirque Albis 2004 (Maipo)
10 Perez Cruz Pircas de Liguai 2010 (Maipo)
11 Viña Aquitania Lazuli 2005 (Maipo)
12 El Principal 1999 (Maipo)
13 Domus Aurea 2008 (Maipo)
14 Ventisquero Enclave 2010 (Maipo)
15 Santa Rita Casa Real 2007 (Maipo)
16 Almaviva 2011 (Maipo)
17 Montgras Intriga 2010 (Maipo)
18 Errazuriz Don Maximiano 2010 (Aconcagua)
19 Viñedo Chadwick 2010 (Maipo)

Talvez o exercício mais interessante foi observar o gosto dos degustadores (que, imagino, representa em algum nível o gosto do consumidor). Os vinhos preferidos foram:
– El Principal 1999
– William Fèvre Chacai 2009
– Domus Aurea 2008

E fui voto vencido em todos, pois meu Top 3 foram:
– Marques de Casa y Concha Limited Edition 2010
– Pérez Cruz Pircas de Liguai 2010
– Errázuriz Don Maximiano 2010

Apenas citei meus favoritos pois foram o prenúncio do que viria pela frente. No dia seguinte, a associação Wines of Chile, promoveu uma degustação chamada “Vertical – Ícones do Chile”, onde seis dos principais tintos chilenos foram apresentados em pares de safras, com intervalo mínimo de oito anos entre elas. Aqui, apesar de não ter sido às cegas, os padrões eram mais estreitos, permitindo comparações mais precisas.

Altaïr 2002 e 2010
Santa Rita Casa Real 2002 e 2010
Clos Apalta safras 2002 e 2010
Don Maximiano Founders Reserve 2000 e 2010
Don Melchor 1996 e 2010
Montes Folly 2000 e 2010

Creio que o objetivo de mostrar a capacidade de evolução na garrafa dos tintos chilenos foi alcançado. Todas as amostras antigas estavam íntegras, uns com mais outros com menos notas terciárias (principalmente couro e tabaco), alguns próximos de seu auge como Don Melchor 1996 e Montes Folly 2000 e outros que pareciam recém engarrafados, como Clos Apalta 2002 e Altaïr 2002.

No entanto, fiquei um pouco assustado, pois em todos os casos preferi as amostras de 2010 (como no dia anterior). Será que estou sofrendo de alguma síndrome da boca novomundista? Como não costumo pontuar vinhos (a não ser por ordens superiores), fui reler minhas anotações.

Na grande maioria das amostras 2010 as palavras que mais encontrei foram “nariz limpo e cristalino”, “ótimo frescor”, “extração moderada” e “taninos polidos”. Ok, não estava tão enganado. Obviamente eram vinhos jovens e ainda exuberantes, mas foram poucas as amostras com notas de frutas compotadas, concentrados, alcoólicos e abaunilhados, os chamados “blockbuster”.

Certamente os tintos chilenos de 2010 amadurecerão com muito mais equilíbrio e nobreza que as amostras da década passada.