Paladar

Luiz Horta

Domaine Urtigão

10 julho 2013 | 21:48 por Luiz Horta

Gosto de pessoas cuja sinceridade beira a rudeza, principalmente quando elas têm razão. Vincent Dauvissat é um Urtigão sofisticado, do tipo que se encontra muito no interior profundo da França. Uma das suas primeiras frases, quando chegou atrasado, sujo de terra e com mãos imundas para o encontro, foi: “Eu não viajo, fico aqui, não quero ir ao Brasil ou a outro lugar, estou sempre ocupado”.

Antes do dia agendado para a visita, várias pessoas se surpreendiam: “Vai ao Dauvissat?”. Reticentes, nunca explicaram a surpresa, mas era uma mistura de admiração por eu ter conseguido a “audiência” com um mito (muita gente não gosta do estilo de seu Chablis, aparentemente julgado mais encorpado e menos cristalino que os demais, o que a degustação desmente) e um certo temor de ele estar em um momento monossilábico e seco.

Era um desses dias. Sua má vontade era visível. Dauvissat chegou desconfiado e com evidente pressa. Trazia uma degustação pronta em um engradadinho de garrafas já abertas, como uma cesta metálica de carregar litros de leite, para ficar livre logo do chato e voltar para o campo. E eu entendo, porque o tempo dele vale uva.

Dauvissat e seu reino. No quintal bagunçado convivem bicicletas e cestos; na cave escura mora um tatu-bolinha. FOTOS: Luiz Horta/Estadão

Seu domaine é um quintal desorganizado, mistura de brinquedos de criança e bicicleta com tubos, restos de madeira e coisas empilhadas. A cave é meio descuidada. Dauvissat pegou com delicadeza um tatu-bolinha que apareceu no tonel que eu usava para apoiar a taça e a caderneta de anotações e o colocou sobre outro tonel. Serviu os primeiros vinhos e ficou olhando com um ar de quem sabia o que ia acontecer.

Foi um tapa na cara.

O uso que faz de madeira, criticado e polêmico, faz todo o sentido. A madeira não interfere em nada. O Premier Cru Vaillons era a própria fineza, um acontecimento. “A madeira é só um catalisador para a expressão do terroir, não me importo com ela como as pessoas parecem se importar”, comentou, já mais risonho. Eram provas de barrica, de vinhos não prontos, e mesmo assim, deliciosos. Esse Vaillons foi, provavelmente, o melhor vinho que bebi na viagem.

Um grande personagem de cinema, Clive Langham, do clássico Providence, de Alain Resnais (representado pelo grande ator britânico John Gielgud), passa o filme inteiro tomando um porre sem fim de chablis. Sempre tentei saber qual, sem sucesso. Hoje eu juro que era o Vaillons de Dauvissat.

Veio o La Forest. Senti taninos da madeira. Comentei. Levei meu coice pedagógico. “Não”, disse curtinho, “não é tanino, é do terroir. Sempre o La Forest tem isso, parecem taninos, não são”. E fui reparando nos vinhos da mesma origem, de outros produtores, e lá estava o tracinho tânico na boca. Ele sabia o que dizia.

“Não sou biodinâmico” explicou. “Uso a biodinâmica sem rótulos. Não defendo nada porque não estou sendo atacado; não preciso me defender, então não abraço causas. Faço o que acho que devo”, falou, sem mais. Eu já estava gostando muito dele, um atrevido da melhor espécie, da que acerta com sua ousadia. O seguinte, Les Preuses, era tão mineral que era como lamber conchas. Ele riu, pegou duas pedras e bateu uma na outra. Apareceu um cheiro de pólvora e pedra de isqueiro. Pedras do chão de Chablis que soltam faíscas e vão para o líquido na forma da eletricidade dos bons vinhos da região. É poesia e imaginação, mas a boca sente.

Seu retraimento passou. Pareceu gostar da visita, ficou mais falante. Quando babei pelo Les Clos, redondo, mastigável, mineralidade pura, e fiz um gesto de que ia desmaiar, deu um sorriso com o canto da boca e foi lá no fundo da adega. Sumiu e voltou com uma garrafa. Eu fui bem no teste, tinha entendido os vinhos dele e ganhei um prêmio. “Olha, para mostrar que temos longevidade aqui.” Era um La Forest 1994, 19 anos de idade, portanto. Boca ampla, acidez vivaz, nariz de marmelos e de salinidade, perfeito, envolvente. Dessa vez, sorrimos juntos, sem falar nada. Era incrível.

Queria comprar todos, porque ele não é importado no Brasil. Ele disse que não tinha nada à venda. Tiramos uma foto juntos. Senti que precisava ter uma prova de ter estado com um grande artesão.

>> Veja todas as notícias da edição do Paladar de 11/7/2013

Tags:

Ficou com água na boca?