Paladar

Luiz Horta

Down town

28 maio 2010 | 07:20 por Luiz Horta

Nunca vou entender completamente a razão dos paulistanos detestarem o centro da cidade. Quando esbarrei aqui pela primeira vez, no inverno de 1985, sem conhecer nada e ninguém, fiquei num hotel espelunca perto da praça da República. Cheguei num sábado de manhã, andei sem rumo, fazia muito frio e garoava, este estereótipo perfeito de São Paulo, quase caricatura de si mesma, que a cidade arranca do clima. Entrei num restaurante qualquer, comi um ragú de coelho delicioso, temperado com bastante zimbro, polenta frita e tomei meia garrafa de um vinho que então era bebível, para os meus gosto e bolso: um Granja União Merlot. O restaurante ainda existe, na rua Basílio da Gama, atrás do Edificio Ester, e se chama Da Giovanni. Acho que nem coelho nem vinho continuam dando as caras.

Fui ao centrão no meu primeiro dia de férias, anteontem. Apenas para gostar. Sou refém da teoria generosa de Henri Lefèbvre, de que a cidade é a única coisa que vale a pena no resíduo que o homem vai deixar no planeta. A cidade é onde fazemos coisas juntos. Saio com desconhecidos, ando com eles num ônibus, compartilho espaços e sou obrigado à cortesia ou à grosseria, mas sou forçado a vê-los, aceitá-los ou combatê-los, tolerá-los. Quem se tranca em prédios cada vez mais complicados busca segurança, alegadamente física, na verdade segurança social, a afirmação constante de sua incapacidade de viver junto e olhando o horizonte de um mesmo ponto de vista que outros milhões. Os que usam helicópteros então, nem se fala. Helicóptero além de falta de educação é um péssimo sintoma, se fosse possível evitaria cidades com eles voando. E chega de conversa moral.

Almocei no Itamarati, no largo de São Francisco, um kassler frito com chucrute e batata. Daqueles pratos eternos, nem bons, nem ruins, apenas necessários. Comprei um chapéu na casa El Sombrero (e não uso chapéu), comprei tinta de caneta, azul real lavável (a coisa que mais mancha no mundo, dedos, papel, roupa) na renitente Ravil, que fica encaixada no Martinelli (projeto de Will Eisner, só pode). Tomei um café no Girondino e vi os monges cantando as vésperas no Mosteiro de São Bento. Peguei o elétrico e voltei. Constatado que o Centro ainda está lá, ficou mais fácil continuar por aqui. Mas até quando o Centro ainda estará lá?

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Ficou com água na boca?