Paladar

Luiz Horta

Emoção, expressão, reflexão

16 outubro 2013 | 22:20 por Luiz Horta

Há um ano estou adiando escrever sobre a Quinta do Noval, porque eu fiz um papelão lá. E não é fácil falar dos seus ridículos. Mas quando o enólogo António Agrellos trouxe uma garrafa antiga vazia, um decantador cheio e disse, solene, “é um Noval Nacional Vintage 1963 de torna viagem” (vinho que foi exportado e voltou, por alguma razão; o “meu” foi à Inglaterra e acabou retornando), bebi e chorei. Acho que ele também. Revejo nossa foto e estamos com cara de emocionados, aquela boca em colchete de quem está prestes a tremer o queixo.

É meio bobo chorar por causa de vinhos, e contar isso por escrito beira o patético; verdade que não foi um buá de desenho animado, com lágrimas voando por todos os lados e soluços, mas foram olhos cheios d’água e uma voz que teimou em não sair, engasgada, um solavanco espiritual. Silêncio emocionado definiria melhor.

Quinta do Noval. Descobertas na propriedade no Douro. FOTO: Luiz Horta/Estadão

A justificativa para a perda de autocontrole não foi só a qualidade do líquido (sim, era especial, intenso, equilibrado, impressionante. Sensacional. Talvez o vinho que mais me tocou em décadas. Jancis Robinson, sempre britânica na contenção e avessa às hipérboles, chamou-o de “mágico e atordoante” e deu sua rara nota 20, a máxima), foi a nossa história conjunta, a biografia engarrafada.

Umberto Eco, semana passada, em entrevista à revista alemã Der Spiegel, disse que fazemos listas na tentativa de organizar o infinito para burlar a morte. Falar de vinhos é igualmente uma maneira de segurar um pouco mais da memória contida nos vinhos, encantarmo-nos pelo tempo passado por aquele líquido, e, talvez por isso, enquanto bebia o 1963 também se enroscava na minha cabeça toda a minha vida acontecida na espera deste encontro.

Vinho é algo bem simples, uvas fermentadas.

Aquele Noval Nacional (Nacional se refere a um vinhedo só, vizinho da mansão, são uvas exclusivamente do single vineyard e safradas – e o 1963 considerado um dos grandes de todos os tempos) era só isso também. Mas fado quer dizer destino. O vinho daquela garrafa estava fadada a ser engolida por este sujeito aqui, que tinha 6 anos quando ele foi produzido e que, ao anotar aquele como um dos grandes da sua vida, salva-o e se salva junto, em confusa memória etílica do momento. Ao listá-lo como um dos que não esquecerei, dou a mim e a ele a chance de ordenar o infinito, enganar o fim. E reencontrar a juventude, porque fui criado em casa em que podia faltar tudo, menos Porto. O Noval Nacional 1963 foi demasiado para um “pobre homem do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais”, parafraseando a abertura do Baú de Ossos, de Pedro Nava.

Mas a Quinta do Noval não é só passado, felizmente. A belíssima propriedade, emblema do Douro, segue e avançará produzindo, com novidades (como o gentil Black) e descobertas, além de seu passado impressionante pela frente. Provei diversos vinhos agora, pois seu diretor-geral, Christian Seely, passou por São Paulo. Com esta responsabilidade, conseguir no espaço de uma coluna narrar uma visita, um abalo e vários vinhos provados, custei muito a decidir qual garrafa destacaria na coluna. Acabei escolhendo o Tawny 20 anos. Tawny é um gosto adquirido, mostra sinais da passagem do tempo, é delicioso bebido no fim do dia, o tal “vinho de reflexão”. Sempre me intrigou essa expressão, reflexão sobre o quê? Decidi que é sobre o próprio vinho, quando bebo tawny reflito, tautologicamente (dicionário! dicionário!) sobre o ato de beber tawny. E me sinto feliz.

Tawny 20 years – Favorito – Excelente
Complexidade é seu nome do meio, uma suma do estilo Tawny. Aromas de frutos secos, damascos frescos, tâmaras; profundo. Na boca é equilibrado, acidez fazendo o Fred Astaire para a Ginger Rogers da doçura, um acontecimento, para beber bem devagar, ao longo de uma semana, taça a taça, sem pressa ( R$ 445; todos os vinhos são importados pela Adega Alentejana, tel.: 5044-5760)

Cedro do Noval – Muito Bom
Um pouco mais carregado no carvalho que o Maria Mansa, é um bom vinho de entrada na linha. É equilibrado, mas tem taninos ainda um pouco duros, pede mais tempo de garrafa. Acidez e corpo são excelentes (R$ 112)

Quinta do Noval Touriga Nacional – Excelente
Potente e raçudo com delicadeza, qualidades tão difíceis de encontrar juntas. Está na lista dos 50 tops para o master of wine Dirceu Vianna Jr. e é fácil de entender a razão, é um belo vinho do Douro (R$ 418)

Quinta do Noval DOC – Excelente
Aromas muito complexos, toque de alcatrão e palha, além de tostado.
Depois de aerado por 2 horas, este
vinho se abriu e mostrou sua estirpe. Longo, delicado e delicioso, um grande vinho (R$ 412)

Black Noval – Muito bom
Um ruby fácil de beber, representa a aposta no futuro, um mundo ideal em que todos entenderão o que é a alegria de beber Porto. É jovem, animado, mas nada banal. Quem gostar do Black já começou a trilhar o caminho dos Portos (R$ 149)

Vintage 2011 – Excelente
Abri-lo agora é até maldade. Denso, aromático, feito para guardar, vai estar pronto em décadas, para comprar e esperar, uma grande safra de um vinho espetacular, síntese do que Porto é capaz (R$ 901)

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 17/10/2013

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