Paladar

Luiz Horta

Feitchulada de shabatão

15 agosto 2009 | 23:30 por Luiz Horta

Se Lenny Bruce tivesse me conhecido diria que sou mais goyish que pão de forma sem casca (bom, ele dizia também “If you’re from New York and you’re Catholic, you’re still Jewish” o que me redimirá um pouco, pois eu acho que sou de Nova York, como todo mundo em São Paulo).

Mesmo assim, amigos me convidaram para um tchulent, feito com a chutzpá habitual pelo chef Benny Novak. E fui meshugenner o suficiente para aceitar. Como perco a pauta mas não perco a piada (ou será o contrário?) levei os novos vinhos kasher feitos pela Casa Valduga, que ainda não tinha provado.

O animado grupo, que pode ser intitulado “da Aracaju” se reúne diariamente numa padoca para exercer a suprema vocação humana de bater-papo. Como conversar abre o apetite, almoçam aos sábados, itinerantemente. Desta vez encomendaram uma “feijoada judaica” ao ICI Bistrô, que não consta do cardápio. Há muitas versões para o prato e para seu nome. A que diz vir das palavras francesas chaud (quente) e lent (lento) é boa demais para não ser verdade.

Um shot de vodca colocou todo mundo no ponto para começar. Vodca é como um empurrão na escada, quando você se assusta já está lá em cima (ou lá embaixo…).

O prato não devia ser chamado assim, tem personalidade suficiente para não ser reduzido a um simulacro de feijuca. É uma receita em que tudo é feito junto, com carnes e grãos, mas a semelhança termina aí. O feijão branco cozido com cevada tem uma textura singular: é muito gostoso rodar na boca os grânulos de cevada, que ganham corpo com a cremosidade do feijão.

As carnes são um embutido de frango, cujo nome não anotei, outro de carne de boi, e um ossobuco com tutano gritando suas gordurinhas essenciais (a manteiga de Deus como diz Anthony Bourdain). Mais ovo cozido, uma batata fantástica e um cebola igualmente bem feita, al dente.

Mas o Glupt! é sobre vinhos…o Chardonnay não era dos mais concentrados, leve demais, corpo ligeiro, não deu conta do recado. Já o Cabernet Sauvignon surpreendeu, parecia mais um Merlot macio, muita fruta, boa acidez, perfeito com a comida.

Os dois espumantes eram bem interessantes, destaque para o Moscatel, algo que Saul Galvão já vem sublinhando com freqüência: como os moscatéis nacionais podem ser bons, sem serem doces. É um espumante elegante, gostoso e muito vivaz. Foi o melhor, junto ao tinto.

Normalmente vinho kasher é adocicado, porque usa uvas híbridas e passa por pasteurização, atendendo às leis alimentares do kashrut. Com os métodos cada vez mais sofisticados e velozes vão conseguindo que o mosto não sofra alterações. É o caso desses Valduga, que mantiveram intactas a boa acidez das uvas.

Engraçado que os rótulos são bilingues, português e hebraico. Mas na mesa leram que o Demi-Sec dizia embaixo: Brut. Como ele tem um tico de presença doce na boca, o certo mesmo seria dizer que é meio-seco, precisam decidir…brut e demi-sec ao mesmo tempo não dá.

A sobremesa foi uma rabanada espetacular, uma das melhores sobremesas que comi nestes últimos tempos. E -depois de brindes e confraternização- terminou.

Isaac Bashevis Singer, no seu discurso de aceitação do Premio Nobel de Literatura em 1978, disse: “de uma maneira figurativa, o idiche é a linguagem modesta e iluminada de todos nós, o idioma da humanidade assustada, mas cheia de esperança”. Eu posso acrescentar, que de uma certa maneira a comida também, depois de confortado pelo bom almoço, mais alegria do que merece um nudnik, porém gentil, gentio.

Voltei quase torto de plenitude para casa, assobiando cançonetas de klezmer music.

[Os vinhos kasher da Valduga só estão à venda pela internet, ou pelo telefone (11)5044-7000, com preço em torno de R$ 30 a garrafa]