Paladar

Luiz Horta

França recupera castas

30 janeiro 2013 | 20:20 por Luiz Horta

Um brinde com Maria João de Almeida

O ser humano é mesmo assim, volta não volta gosta de mudar, provar coisas novas, seguir tendências e modas. E o vinho não fica atrás. Já lá vão alguns anos que a guerra das castas começou. Logicamente, as mais conhecidas eram as francesas, que se difundiram em grande escala pelo mundo afora, mas depois o consumidor quis experimentar outras coisas, surgindo castas de outros países muito interessantes que foram conquistando o paladar dos consumidores pela diferença.

Vários especialistas sabem que Portugal tem a desvantagem de não ter quantidade suficiente, mas por outro lado confirmam a vantagem da qualidade e originalidade das nossas castas.

Espanha e Itália, por exemplo, têm maior quantidade que Portugal, mas jogam com as mesmas armas no que diz respeito às castas, já que utilizam variedades tradicionais para a produção de seus vinhos, e sabem aguçar a curiosidade do consumidor cansado de tanto Chardonnay, Sauvignon Blanc, Cabernet Sauvignon ou Syrah. Porque já são muito conhecidas e utilizadas e porque seu perfil, apesar de em cada país adotarem um comportamento diferente, acaba sempre por ter as mesmas nuances.

Entretanto a França, que na maioria das vezes está sempre na vanguarda dos conhecimentos enológicos, tardou a perceber isso, agarrada que está à produção dos seus vinhos sempre com as mesmas castas (que, apesar de tudo, continuam a funcionar no mercado). Mas agora parece que acordaram, já que alguns produtores franceses estão a tentar recuperar variedades nativas à beira de desaparecer.

Atualmente existem cerca de 7 mil variedades de Vitis vinifera no mundo, e o Instituto Nacional de Pesquisa Agrícola da França (Inra) preserva 2.600. Dessas, somente 250 estão a ser plantadas, e 95% das vinhas francesas são dominadas por 40 variedades (15% delas castas como a Chardonnay, Merlot, Pinot Noir e Syrah).

Robert Plageoles, um dos pioneiros do projeto de recuperação de castas, mora em Castelnau-de-Montmirail (centro da denominação de origem de Gaillac) e vem de uma família de viticultores. Para que as castas nativas não desaparecessem, começou a cultivar em 1982 a Ondenc, uma variedade branca típica de Gaillac, que na época era banida.

Outra cepa branca pouco conhecida e cultivada por Plageoles é a Verdanel. Essas duas se incluem no grupo das 15 variedades que historicamente eram cultivadas na região, mas deixaram de ser plantadas e agora estão voltando a surgir.

Por sua vez, Nicola Gonin, proprietário de terras em Rhône-Alpes, afirmou recentemente que o futuro da vitivinicultura francesa depende, em parte, da revitalização de seu patrimônio. Em 2005, começou a plantar a uva Persan e conta que podia ter ido à falência se tivesse continuado com as uvas tradicionais. Hoje, graças a essas variedades, vende vinho para Nova York, Chicago e Tóquio; antes disso, era um mero produtor desconhecido. Por último, a Plaimont, uma cooperativa do sul da França que lançou recentemente um vinho produzido com uvas de videiras pré-filoxera (datada de 1871), andam também a restaurar vinhas de forma a preservar a herança histórica. A cooperativa é, aliás, a detentora atual da maior coleção ampelográfica (banco de videiras) particular da França, o Conservatoire Ampélographique du Saint Mont, e tenta identificar mais variedades que possam ser salvas no futuro. Segundo Olivier Bourdet-Pees, técnico e diretor da cooperativa, o futuro dos vinhos franceses passa pela produção de vinhos com estas variedades ainda não identificadas. E é capaz de ter razão.

>> Veja todos os textos publicados na edição de 31/1/13 do ‘Paladar’

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