Paladar

Luiz Horta

Javali-Conti

03 maio 2009 | 05:01 por Luiz Horta

Algumas vezes os jantares dão certo. Umas poucas. Um javali que vai sendo esperado enquanto se toma vinhos, por exemplo. Primeiro um Riesling alsaciano Bott-Geyl Les Elements. Muito digno, cheio de tipicidade da uva, ainda que perca no olho mecânico para a Alemanha e a Austría. Mas com tanta acidez e aquela promessa de evolução, manteve-se como algo a ser considerado. Depois, com o javali já se anunciando no aroma, veio a grande surpresa da viagem, o reencontro com os extraordinários Bordeaux argentinos das Bodegas Weinert. Eu duvido, e truco (jogado com cartas ou sem baralho, gestos imaginários no espaço), que alguém, às cegas, não pensasse destes vinhos esquecidos e menosprezados de Mendoza, que se tratassem de belíssimos Pomerol evoluídos, e custando 48 reais…

Finalmente, o javali chegou à mesa: casca crocante, carne em gomos finos como um porco intenso, um über leitão, quirera lapeana (que eu chamo de canjiquinha) e molho de alho doce. Denso, imponente, selvagem na medida. Feito com perfeição, úmido. E com ele um Les Montots de Aubert de Villaine. Um vinho pessoal do Monsieur, não um DRC, pois a conta não permite tamanha extravagância, mas um modesto Pamela e Aubert do Bouzeron, um Mercurey, que ele faz fora dos extremos constrangimentos da mais famosa cerquinha de vinhedos do mundo.

O vinho viajou, pobre garrafa. Colhido na Borgonha, foi parar na Grand Épicerie do Bon Marché da rue de Sévres. De lá, na mala pesada do viajante, sacoleja, sacoleja, suando na rampa do metrô, chegou a São Paulo, e de novo, sacoleja, sacoleja, Barra Funda, 500 quilometros de estrada, para ser finalmente decantado por 12 horas numa mesa de cozinha nalgum ponto da geografia brasileira, onde jamais sonharia encontrar sua epifania.

Ficou com água na boca?

Diante do javali emblemático e saboroso cresceu em presença, borgonhice, transmutou-se em seus parentes mais nobres, deu conta do recado. Virou um Romanée, virou um Conti, que enfrentou um javali. Mediram-se, igualaram-se, dançaram a dancinha única e perfeita da harmonização. “Algo que daqui em diante chamarei de sabor perto do timo”. E nem era um grande Borgonha

[Respondendo: o javali foi comido no ótimo restaurante Estação, na Rua Paraíba, 579, em Londrina. Um lugar de Buenos Aires acontecido ali naquela pacata cidade. O javali confitado não está no cardápio, pois depende da matéria prima perfeita, então o melhor é ligar e encomendar. Vale a pena.
Tel.:(0xx)43 3356-7722.
Tomei dois vinhos das Bodegas Weinert, o Merlot e o Cavas de Weinert, que é um corte de Cabernet Sauvignon, Malbec e Merlot. Ambos eram extraordinários]