Paladar

Luiz Horta

Kasher, sem tremedeira

10 abril 2013 | 22:30 por Luiz Horta

Quando me falavam em provar vinhos kasher eu tremia. Eram horríveis, doces, de uvas não viníferas. Nunca pensei que ia poder usar na mesma frase a palavra excelente em conexão com um vinho kasher.

Outra surpresa nesta coluna foi ter gostado, mas gostado muito, de um Prosecco, uva medíocre que só resulta em espumantes pop-pop para casamentos. As duas coisas aconteceram na prova dos vinhos trazidos por uma nova importadora, a Confraria Kasher.

Para serem classificados como kasher (adequados para consumo, em tradução bem livre) e autorizados para os judeus que observam as práticas religiosas, o vinho (como os alimentos) precisam ser produzidos segundo as regras alimentares do kashrut, uma normativa estabelecida secularmente. Uvas colhidas e manuseadas na cantina por religiosos, supervisão do processo de vinificação e aprovação de um rabino e – o que destruía todos os líquidos – pasteurização.

Ficou com água na boca?

Além disso, eram usadas, em geral, uvas de Vitis Labrusca, variedades americanas, que dão no nosso vinho de garrafão. No caso a mais comum era a Concord, ainda bastante utilizadas nos vinhos das cerimônias e para a missa católica. Imagine um vinho de garrafão muito doce e pasteurizado. Era o que tínhamos.

Anos atrás provei inúmeros, com ajuda do simpático caviste Simon Knittel da Kylix Vinhos (que vende, na sua ótima loja, outros vinhos também, esclareço) e não deu para arrancar maná de pedra, eram todos suco de uva enjoativo.

A Confraria Kasher está trazendo cerca de 40 rótulos, inclusive champanhe Perrier-Joüet. Mas o que mais me encantou foi um Cru Bourgeois do Médoc, o Château Le Bourdieu.

Eric Asimov, colunista do New York Times, escreveu recentemente sobre a ceia de pessach, o seder e perguntou: “onde está escrito que os vinhos kasher precisam ser adocicados? Embora os judeus mantenham laços sentimentais com os prazeres dos fermentados geleiosos feitos com uvas Concord, alguns querem beber bem; beber bons vinhos”.

A técnica de purificação pelo calor foi bastante sofisticada e seu efeito religioso mantido, sem dano aos vinhos. Antes eles eram praticamente cozidos, para serem considerados totalmente kasher (a palavra Mevushal aparece no rótulo, e quer dizer que os vinhos foram levados a mais de 150 graus de calor, com o imaginado desastre causado ao líquido). Agora há ligeira e eficaz pasteurização. Nenhum dos vinhos que provei estava adulterado, todos mantinham acidez, taninos e equilíbrio perfeitos.

Château Le Bourdieu 2009 – Excelente
Nariz refinado, muito bordelês, boca intensa, ótima acidez, vivaz e longo, tão fácil de beber que acabei por tirá-lo da mesa de degustação para a de jantar. Belo Bordeaux (R$ 100).
Confraria Kasher: tel. 95205-4720

Prosecco Primo Brut – Muito Bom
Boa surpresa, um Prosecco com densidade, corpo e boa acidez, em lugar da tradicional aguinha sem graça dessa uva. Posso até falar em complexidade (R$ 66).

Château de l’Anglais 2009 – Muito Bom
Nariz com toque verdoso, gostoso na boca, sem o vigor do outro Bordeaux. Correto, equilibrado, um pouco curto na boca, taninos levemente secantes (R$ 95).

Cava Gudufredo Brut – Bom
O menos interessante do grupo, mas com um preço bom. Acidez abaixo do esperado e leve amargo final, não entusiasmou, embora bem frio seja boa companhia para petiscos (R$ 35).

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