Paladar

Luiz Horta

Liquidificando as certezas dos vinhos

24 março 2011 | 10:14 por Luiz Horta

Um sujeito tão iconoclasta e investigativo não ia esquecer os vinhos. É verdade que seu capítulo sobre a bebida deixa a impressão de que ele está só começando. O polêmico assunto do terroir, por exemplo, é apenas mencionado, com a vontade de investigar sua real comprobabilidade científica, aquilo que Karl Popper propunha na filosofia: científico é tudo que em tese é refutável. Até o momento, terroir é religião, não tem verificação laboratorial e portanto não é um fato científico. Ele flerta com a excelência de Bordeaux (sempre querendo saber suas razões), fala em Robert Parker, mas o capítulo é muito curto. Tomara que, no futuro, vire todo seu maquinário para o assunto, seria bem útil. Myhrvold não deixa de dar suas cutucadas nas certezas vinícolas. Primeiro trata de um dos horrores do mundo dos vinhos, a contaminação das rolhas por TCA, o nome pronunciável do 2,4,6-Trichloroanisole, que transforma os vinhos em algo imbebível, com aroma e sabor de mofo e papelão molhado. Myhrvold diz que o TCA é um polímero parecido com o polietileno e ambos em contato se aglutinam. A tradução disso é: se abrir um vinho e estiver bouchonné, contaminado, basta filtrá-lo em polietileno (ele sugere bolinhas compradas em lojas de aquários e usadas para purificação de água, mas plástico-bolha também serve) e a desgraça vai embora, salvando-se o vinho. Ainda não testei. Se der certo, o cara será o ídolo do consumidor de vinhos. Mas isso não é o mais chocante que ele propõe.
Aceitando que a aeração vigorosa melhora vinhos muito jovens e potentes, razão para usarmos o decanter com frequência, pergunta: “E se hiperaerássemos os líquidos?” E responde com – o horror, o horror – um liquidificador. Bate por 1 minuto os líquidos num potente eletrodoméstico caseiro. A imagem é chocante: o vinho que tratamos com gestos comedidos de um podador de orquídeas sendo girado enlouquecido no torvelinho do copo de vidro. No final, uma camada de espuma de um palmo de altura, capaz de fazer um enófilo sensível desmaiar. Ele diz que funciona, quando a espuma assenta. Agora é experimentar e opinar.

Ficou com água na boca?