Paladar

Luiz Horta

Magia magiar

05 março 2010 | 04:33 por Luiz Horta

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Eu bem que achava que o nome húngaro para seu próprio povo: Magyar, tinha alguma conotação extra, remoto parentesco com mágicas. Hoje, na degustação do Glupt! para o Paladar da próxima semana, José Luiz Pagliari apareceu com uma garrafa que parecia retirada do Titanic. Era um Tokaj de 1949, que pertencera ao pai dele. “Não tenho ideia de como esteja, provavelmente é só uma curiosidade, melhor não criar expectativa”, avisou cauteloso.

Como não? Um Tokaj de 61 anos de idade, produzido após a 2a Guerra e antes da invasão russa que deu cabo na revolução húngara em 1956. Os vinhos de Tokaj, sob os soviéticos, perderam qualidade, viraram uma piada, produzida em escala industrial, água com açucar e corante. Só depois do fim da URSS e com a  Hungria novamente independente, Tokaj foi recuperando prestígio.

Logo, um vinho desta época tinha que estar bom.

A cor marrom escura não era muito alvissareira. Pagliari fez uma verdadeira cirurgia para tirar a rolha. À primeira cheirada parecia um Pedro Ximenez. Mas na boca não tinha a viscosidade dos vinhos andaluzes.

Deu taquicardia, era preciso provar o líquido: estava vivíssimo, uma acidez imutável, uma doçura bem abrandada, elegante. Cada minuto acordava mais, apareceu de tudo: tâmaras, figos secos, alecrim fresco, incenso, vela apagada. Parecia a catedral de Budapeste no final de uma missa, tinha ecos e ruídos, música e silencio, vento e calor de chama. Foi curioso testemunhar a garrafa se defrontando com um iphone que a fotografava, ela que tinha entrado em sono antes de tudo isto e acordou agora noutro século.

Vinho que roubou o dia, a cena e a degustação. Não deu para falar de outra coisa.

Ficou com água na boca?