Paladar

Luiz Horta

Microvinhedo, macrovinho

03 julho 2013 | 23:21 por Luiz Horta

Começo a série de colunas que dedicarei à Borgonha com uma degustação no Clos de Vougeot, pois a presença da ordem cisterciense é decisiva na história da região. O vinho da Borgonha não existiria sem os monges católicos da abadia de Citeaux, que, em ritmo de canto gregoriano, foram conhecendo seu solo, selecionando as melhores videiras e classificando de modo lento, seguro e intuitivo, os melhores lugares para plantar.

Chique e simples. A casa verdejante do Domaine Confuron. FOTOS: Luiz Horta/Estadão

O vinhedo murado (Clos) de Vougeot é um emblema disso: originalmente de um dono só, a Igreja, passou ao Estado na Revolução Francesa e foi sendo dividido até chegar ao que é hoje (o código napoleônico estabeleceu a herança igualitária entre filhos; assim, um dono de dez hectares com cinco filhos deixava dois para cada; estes, por sua vez, deixavam um pedaço de sua herança para cada descendente, daí os minivinhedos).

Todo mundo que visita a Borgonha passa por experiência semelhante: a surpresa com a fragmentação das vinhas entre proprietários. Fui com Philippe Pacalet, que admiro muito, ver seu “vinhedo” de Beaune, antes de jantarmos. Ele apontou a montanha, pensei que era toda dele. “Não, são estas 25 fileiras aqui. Depois já não é meu.” E onde está dizendo isso, cadê a cerca, a placa?, perguntei. “Não tem, não precisa, todo mundo respeita.” Pacalet é o exemplo de homem do campo que faz a diferença na Borgonha. Nas horas em que estivemos juntos, visitamos e acariciamos os brotinhos que começavam a surgir nas videiras. Investigamos o céu – “vai chover, virá geada?”. E ele me deu umas pedras, porque coleciona, o chão é o segredo da Borgonha. Foi assim a viagem toda: só pessoas ligadas ao solo e ao clima.

Degustação no vinhedo do Clos de Vougeot

Cada uva ali significa vinho. É o lugar do terroir e da contenção. Acima destaco um vinho provado dentro do Clos de Vougeot e abaixo estão fotos dos cidadãos camponeses que fazem a Borgonha. Quem diria encontrar o mítico Ramonet carregando caixas de vinho? Ou que a sede dos deliciosos e caros J. J. Confuron é uma pequena casa florida em uma beira de estrada? E que os incríveis vinhos de Claude e Catherine Maréchal fossem provados na boleia de um caminhão, na mais inesperada degustação que já fiz na vida? A Borgonha é isso – grandes vinhos complexos e borguinhões simples.

Philippe Pacalet, que tem até fã clube no Japão, produtor atrevido e visionário, brinca com o decantador ovarius, posando para o Glupt!

A família Meunier, na foto mãe e filho, mora na casa com jardim simples e tem a cave no subsolo, com os grandes J. J. Confuron

Claude Maréchal, entusiasmado, aproveitou a tarde de sol e mostrou 16 vinhos na ‘mesa’ improvisada de degustação, no caminhão

 Nöel Ramonet, neto do fundador do Domaine e atual enólogo, surpreendido na rua carregando caixas de vinhos, alguns raríssimos

Vieilles Vignes, 2007. Château de la Tour de Clos de Vougeot | Traços de fumaça, intenso e carnudo no nariz. Na boca é macio, delicado e floral, com taninos finíssimos e acidez vivaz (representados no Brasil pela Importadora Decanter). Avaliação: Excelente.

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