Paladar

Luiz Horta

Minha primeira ‘en primeur’

14 junho 2012 | 18:55 por Luiz Horta


Château Cantenac Brown, Grand Cru Classé de Margaux

Clima de fim de campanha, a de Bordeaux 2011. Participei da exaustiva apresentação dos vinhos da região em duas etapas, visitando produtores. De abril a maio, os olhares (e narizes e bocas) do mundo do vinho se viram para lá. É nesse período que os vinhos da safra anterior, com cerca de seis meses de idade, são dados a provar à imprensa, importadores e comerciantes.

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Os enólogos fazem cortes que, mais ou menos, serão os definitivos, pois os vinhos ainda não estão prontos. Cada château dedica uns minutos aos visitantes, com um aperto de mão, uma troca de cartões e amostras para provar. Os vinhos estão ainda fortes de taninos e acidez, agressivos. A tarefa é calcular como – e se – evoluirão.

O provador que queira comprá-los receberá um certificado e dois anos depois, em média, quando os vinhos forem engarrafados, pode pegar suas garrafas. Na realidade, os compradores costumam renegociar tais certificados, como ações de um mercado futuro. O sistema é polêmico e neste ano vem sofrendo ataque violento da crítica inglesa, que quer forçar uma baixa dos preços.

Latour, um dos grandes, anunciou que essa foi sua última campanha: a partir do ano que vem venderá vinhos quando estejam engarrafados. Yquem retirou seus vinhos da campanha deste ano, sem sair do sistema. Mas a maioria continua valorizando o estilo histórico de venda de Bordeaux.

Tive alguns privilégios, como estreante e também pela cobiça que o mercado brasileiro desperta nos europeus. Os chineses, a grande esperança do comércio de vinho, deram uma recuada neste ano, por terem comprado demais as safras consideradas excelentes de 2009 e 2010.

Fiz degustações privadas com alguns senhores respeitáveis, caso de Charles Chevallier, do Lafite (leia abaixo) e Hubert de Boüard de Laforest, do Château Angelus, onde jantei com a família inteira e pernoitei. Fica para meu anedotário, o simpático aristocrata Laforest fazendo meu café da manhã, enquanto eu via suas fotos com Clinton e Mandela na parede da cozinha. Visitei o Cantenac Brown com o amável José Sanfins, que me mostrou o apiário, a cisne Camilla (Charles morreu, eram dois) e me deu um raro pote de mel feito ali.

Sorte de principiante. Os vinhos? Tive surpresas. Muitos deles já estão quase bebíveis agora, uma safra menos complexa, talvez, pois os 2009 (e alguns 2010) provados estão ainda bem longe do ponto ideal de consumo. A impressão é que 2011 será uma safra normal, de vinhos para serem bebidos mais rápido que o habitual em Bordeaux.


Dormi duas noites no Pichon Longueville Baron, o château da foto. Sozinho. Fiquei com a chave da propriedade e rondei pelos salões repletos de antiguidades e retratos ancestrais. Da janela do quarto, via vans parando de 15 em 15 minutos para fotografias. Pensei em me vestir com um lençol e aparecer na janela de repente. Infelizmente, não tive coragem.

Ficou com água na boca?