Paladar

Luiz Horta

Noite em Vegas

22 março 2009 | 08:15 por Luiz Horta

Por gentileza extrema de amigos, daqueles que prezam sua privacidade e anonimato, participei de inacreditável noite nos Vegas. Não no famoso e bem sucedido club noturno da rua Augusta, o VEGAS, do meu cordial vizinho Facundo Guerra, mas no meio de garrafas de Vega Sicilia, o mais importante vinho da Espanha.

A abertura de uma garrafa de VS é um acontecimento vinícola. O desarolhar de três, de anos diferentes, é como a abertura do Mar Vermelho nos Dez Mandamentos, na versão de Cecil B. de Mille, imponente, impressionante, rara e rápida.

O “Unico” 95 era perfeito, os taninos finos típicos do Vega estavam lá, muito elegantes. A acidez era justa, agradável, o nariz não poderia ser mais de Ribera del Duero, aquela madeira presente mas sutilizada pela fruta e profundamente integrada. Boa madeira bem utilizada é uma das mais notáveis características da vinificação da região. Já tem traços modernizantes, não é mais aquele VS 1989, o melhor que já tomei até hoje, mas é um Vega, um grande, excelente Vega, que poderia esperar uma decáda para atingir a redondez absoluta. Se fosse feito por Bach, seria um Coral dos mais iluminados da série das Cantatas. F18++

O “Unico” 96 era mais agressivo, os taninos estão durinhos, tem um final na boca bem secante e apesar de delicioso era o menos pronto dos três. O nariz era um pouco mais fechado e tendia aos tons dramáticos e menores, ao contrário dos tons maiores do anterior. Em Bach seria uma peça sombria para orgão, bem quaresmal, ou talvez uma das Paixões. F18

O “Reserva Especial”, curiosa mistura de 3 safras, embalado numa garrafa bem feiosa de vidro jateado, apesar de ser o mais caro dos VS, era outra coisa. Não pareceria um Vega, não fosse a elegância, fineza e perfeição técnica. É de uma arquitetura inacreditável, parece de mármore cinzelado com precisão. Mas com uma fruta tão exuberante no nariz que ganhou tinturas de vinho moderno. Com o tempo de decanter e de taças, cresceu em equílibrio e acidez exemplares e perdeu estes exageros frutados: virtudes em outros vinhos, destoantes num Vega Sicilia.
Retrato perfeito do que é somar diferentes safras, cada momento aparece separadamente nas características solísticas delas, mas que podem ser ouvidas, ooops, bebidas, como um todo. Melhor exemplo impossível para as distintas vozes que compõem a música barroca. Este seria, em Bach, um prelúdio bem enroscado de contraponto do Cravo-bem-temperado, ou talvez uma grandiosa peça para orgão. F18+

Todos os vinhos, depois de degustados, foram bebidos com um jantar impecável, no restaurante do Hotel Emiliano. No meu caso, gnocchi de entrada e confit de pato exato, pele crocante, carne úmida, como principal. Ribera del Duero(a denominação em que o VS está, mesmo que seja tão grande que nos esqueçamos disto) combina mesmo com cordeiro assado, escolha de um dos companheiros de comida, dono de nariz perfeito, que soube farejar no menú este prato. Mas acho que Bach, tão austero na sua fé luterana, mas tão voluptuoso na sua criatividade (e fértil em produção, inclusive de 200 cantatas e 20 filhos), saberia entender a homenagem.

Ficou com água na boca?