Paladar

Luiz Horta

O boom

07 outubro 2009 | 05:20 por Luiz Horta

Conversei ontem por um bom tempo com Adriano Miolo, por telefone.Nos emocionamos lembrando que a última aparição pública do Saul Galvão para uma degustação foi na vertical do Lote 43, durante o Paladar Cozinha do Brasil.

Ele falou do que pretendem para a recém adquirida Almadén. Publico no Paladar de amanhã. Mas algo que não digo lá, conto aqui. Muitas vezes provo vinhos brasileiros de que não gosto. E digo. Há pressa demais, madeira demais, preço demais. Mas tenho afeto pelos Miolo, aprecio a teimosia com que acreditam no que fazem e vão em frente. Elogiei o Gamay, lançado neste ano com consultoria de Henri Marionette. Continuo achando o que escrevi aqui no Glupt!: um vinho como deve ser o de todo dia brasileiro, muita fruta, gentil, mas com acidez gastronômica e por 19 reais. Adriano concordou, prometeu que não vão abandonar este perfil, ao contrário, pretendem justamente melhorar os vinhos de uvas viníferas numa faixa de preço ainda menor.

Como sempre lembra Didu Russo, da nossa viagem ao Uruguai, dois anos atrás, o mais surpreendente foi ver que o vinho de garrafão lá é vinho de verdade, não de uvas híbridas e custa em torno de 1 dólar o litro. Isto forma bebedores com gosto preparado para o entendimento dos vinhos melhores. E deixa os vinhos melhores, mais caros e mais imponentes, para as grandes ocasiões.

A Miolo produzindo, sob o rótulo Almadén, bons vinhos em torno dos 12 reais, como pretende Adriano, de uvas de verdade, prestará grande serviço ao melhoramento de nosso iniciante em vinhos. O resto conto na nota de amanhã.

E digo isto com conhecimento total de causa. Fiz meu primeiro curso sério de degustação em 1987, bebendo Almadén! Para minha geração, que começou a se interessar pelo assunto nos anos 1980, a Almadén foi uma revelação. E tinha sua razão, Adriano elogia a qualidade impecável dos vinhedos que encontraram para comprar agora. Naquela época, mais de 30 anos passados, deve ter sido uma sacolejada e tanto uma empresa cuidando de qualidade numa região ainda pouco valorizada, como era a Campanha gaúcha.

Depois vieram outros fatores, mudança de donos, decadencia nos vinhos, competição externa, aprendizado dos enófilos no contato com mais diversidade (como disse o Saul, quando falei de um Cousino Macul que me encantava nos idos dos 80s e decepcionara numa degusta: “não era que o vinho fosse bom, você que melhorou seu gosto”).

Além de gostarmos de vinhos brasileiros, é preciso que o vinho brasileiro goste da gente também, isto dái, que zelem para que haja produtos decentes em toda faixa de preço e para toda ocasião. Não adianta só fazer vinhos caros para ganhar uma medalha em concurso. É preciso ter um líquido gostoso para ser comprado no supermercado e tomado com a pizza dominical.

O grande passo da Miolo tem sido saudado como um grande negócio. Mas o mais interessante é perceber que tem gente lá, que atende o telefone, se anima e faz projetos reais. Isto melhora a nossa mesa, que por vias tortuosas, melhora a qualidade humanística da sociedade meio machucada que é a nossa.

Ufa! Editorial do Glupt! Saiu sem querer, mas parabéns aos Miolo e vamos esperar mais vinhos abaixo de 20 reais para serem bebidos sem sofrimento.

Ficou com água na boca?