Paladar

Luiz Horta

O caviste é antes de tudo um téorico do balcão

12 junho 2013 | 23:10 por Luiz Horta

Em qualquer cidade do mundo que não se conhece há três coisas imprescindíveis na chegada e nos primeiros dias de residência: saber seu endereço de cor e poder dizê-lo de forma compreensível para um taxista, achar um caixa eletrônico e ter o nome de um bom caviste.

Em Paris é fácil, porque falo francês. Mas em Berlim foi outra coisa. Eu não falo alemão, mas penso que sim, só porque estudei três meses. Consigo me virar nos números, nos cardápios e, em vinhos, chego a escolher o que quero e receber. Porém, precisava de um caviste, o sujeito que aconselha, o “farmacêutico” vinícola de confiança, o cara que ensina um vinho de bom preço que você nunca experimentaria por não conhecer o produtor. Meu caviste em São Paulo é o Simon Knittel, da Kylix Vinhos, antes que me perguntem.

Final feliz. Para alívio do colunista, o dono da loja, Philippe Gross, é da Alsácia e fala francês. FOTO: Luiz Horta/Estadão

O primeiro que tentei foi um fiasco. A loja era perto de casa, o estoque, bom. Mas o caviste era taciturno… Eu chegava com entusiasmo ensolarado e recebia um rosnado. As prateleiras me atraíam, com safras antigas de Rieslings, Bordeaux dos que gosto com preço bonito, bom sortimento de vinhos do mundo. Só que a conversa não fluía. Depois da terceira visita sem papo nem obrigado, desisti. Comprei em grandes lojas – as duas gigantes de departamentos são muito boas, KaDeWe e Kaufhof. Porém faltava o papo, a conversa de insiders, o enofilismo cúmplice. Faltava o “experimente este, se não gostar, não pague”.

Por acaso, um mês atrás, achei uma lojinha acanhada na subida da Veteranenstrasse. Foi a falta de fôlego que me ajudou. Tive de pedalar muito devagar para vencer o morrinho e também pelo medo que cultivo de encaixar a roda da bicicleta no trilho do bonde. E vi: a vitrine cheia de garrafas. Caixas empilhadas, caótica, rótulos totalmente desconhecidos, alguns com cara de alternativos, desenhos engraçados nas etiquetas, um paraíso de ineditismos.

Entrei e adotei como minha loja (Weinerei, Veteranenstrasse 14 ). A grande maravilha murchou um pouco, o dono não falava inglês. Passamos aos gestos e a minhas poucas palavras alemãs sobre vinho, mais os nomes das uvas e mais uns sons que podiam ser qualquer idioma. Funcionou. Saí com duas garrafas, de cortes Pinot Gris e Sylvaner ótimos.

Voltei. Só na segunda visita ele perguntou: “Vous parlez français, Monsieur?”. Alívio, Monsieur, ou Herr Philippe Gross, é alsaciano. Não quis me ofender na primeira vez errando minha nacionalidade, então moitou na língua. Agora vamos em francês. Estou montando minhas degustações com ele. Tenho caviste e tenho recebido ótimas recomendações. Uma delas, o espumante destacado acima.

>> Veja todas as notícias da edição do Paladar de 13/6/2013

Tags: