Paladar

Luiz Horta

Objeto vinificado não identificado

22 maio 2013 | 23:00 por Luiz Horta

Os vinhos feitos com a uva Pedro Ximénez, típicos da Andaluzia, são poderosos e fazem o gênero gaita de fole. Ignorá-los não dá, detestá-los é fácil. Doces ao extremo, viscosos, tem quem chame de óleo de carro engarrafado. Eu sou um grande jerezeiro, mas dos PXs bebo menos.

Na degustação de queijos em que dividi a mesa com a sommelière Daniela Bravin e o queijeiro Bruno Cabral, na recente edição do Paladar – Cozinha do Brasil, colocamos um Reserva San Emilio Pedro Ximénez Lustau (R$ 160, Ravin, tel.: 5574-5789). Era pegadinha, pois havia um queijo azul, um dos problemas para combinar com vinhos – qualquer pessoa que já comeu gorgonzola ou roquefort e deu uma golada na taça em seguida sabe o choque que acontece. Os azuis são lesadores de palato, salgados e com tamanha presença que matam os líquidos.

Os participantes detestaram o vinho, em todas as combinações resmungavam “que vinho enjoativo”. Mas quando chegou o momento do queijo azul de Joanópolis, houve um silêncio de surpresa. Fez-se o “plim” mágico do encaixe ideal. O Pedro Ximénez estava lá para isso e cumpriu seu momento de solo adequadamente. Então alguém perguntou como era essa uva. Respondi que só era usada para vinho doce fortificado. Bravin e o jornalista Marcel Miwa, que estava na plateia, discordaram: “Existe PX como vinho de mesa, branco seco”, e citaram um chileno que não conhecia – e na hora não anotei o nome.

CRÉDITO: Infográfico/Estadão

Viagem engarrafada – Parada 63/100
Montilla-Moriles, Andaluzia,  Espanha
Pedro Ximénez – Uva dos vinhos doces fortificados, neste caso vinificada em branco

Aconteceu então o que os ingleses classificam com linda palavra: serendipity, para a qual não temos equivalente. É uma mistura de acaso e felicidade. Fui olhar outras coisas na La Maison du Whisky em Paris, que vende os maravilhosos jerezes da Equipo Navazos em pequena quantidade. Lá no meio, com um rótulo colorido bem chamativo, por A 18, estava o Ovni 2011: PX seco produzido por eles na região demarcada Montilla-Moriles. O vinho é realmente um objeto não identificado. Perfeito para servir às cegas e rir da impossibilidade de reconhecê-lo. A garrafa é renana, o que aumenta a dúvida: será um Riesling com todo esse petrolado? Tem toques notáveis de repolho, poderia ser um Grüner Veltliner austríaco. Para dificultar, tem muita pedra de isqueiro, é mineral até o possível, quase salgado na boca. No site dos Navazos, o genial Jésus Barquín explica que foi fermentado com leveduras do ambiente, formou flor como nos finos e manzanillas e mostra de modo exuberante o solo branquinho da região – calcário, giz.

FOTO: Luiz Horta/Estadão

OVNI 2011 – Excelente
Equipo Navazos
Nariz algo petrolado, parece um Riesling, com leve toque de legumes cozidos, aroma bem curioso. Na boca é saboroso, encorpado, acidez marcada e longínqua doçura. Muito bom.

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