Paladar

Luiz Horta

Château Kilowatt

28 dezembro 2008 | 23:08 por Luiz Horta

Perguntam se o artigo publicado na Folha de hoje, tradução do original aqui na New Scientist fala a verdde.

Para quem não leu o artigo, que é muito bom, um resumo: ele explica rápidamente o que faz os vinhos evoluídos (ou no popular, envelhecidos) serem deliciosos e complexos: amaciamento de taninos, ganho de sutilezas na acidez, desenvolvimento de aromas secundários, terciários e mais outras coisas técnicas na química, biologia e até física do líquido na garrafa.

Mas, como um vinho para ter 20 anos leva -exatamente- 20 anos (igual aquele personagem de Borges, “Funes, o memorioso” que gastava 24 horas para se lembrar com exatidão de 1 dia completo…) os cientistas tentam achar modos de simular estes acontecimentos engarrafados num tempo mais curto. Dar um calibre no ponteirinho dos segundos.

Agora é um químico, de que fala a revista: um professor chinês da Universidade de Guangzhou, sul da China, que tem obtido sucesso usando campos elétro-magnéticos.

Ano passado, no Paladar, testamos uma trepeça metálica que mergulhada na taça envelheceria o vinho: 1 ano a cada segundo de imersão. Funcionava? Sim e não. Alterava o sabor, oxidava o líquido, mas não era capaz de reproduzir tudo que acontece com o vinho deixado sossegado.

O paralelo com uma cirurgia cosmética é irresístível, pois é disto que se trata. É possível esticar a pele e eliminar as rugas, mas o organismo inteiro segue em frente na sua tarefa de envelhecimento. Queremos desanimar o tempo nos nossos corpos e apressá-lo nos nossos vinhos. Nos dois casos é inútil, o tempo continua vencendo.