Paladar

Luiz Horta

Queijo é com branco

06 novembro 2013 | 23:43 por Luiz Horta

Queijos e vinhos, só de escrever a dupla já ouço um bocejo de certeza. Mas as certezas estão todas erradas, as suas e as minhas. Há uma campanha do organismo francês de turismo, conclamando a que comamos mais queijos, com o laclosiano nome de Ligações Saborosas. Concordo e apoio. Gosto tanto dos lácteos que muitas vezes engulo rápido a comida só para chegar logo ao assiete de fromages, que na refeição francesa, vem depois de tudo, antes da sobremesa. Como na França queijo não brinca, fui testar a sério as combinações com vinhos.

Lembro da minha primeira experiência de choque cultural em Paris. Entrei em uma loja, a Barthélemy, e pedi um reblochon, um dos meus favoritos. “Mas qual, Monsieur?!” exclamou quase ultrajada a balconista. Balbuciei qualquer coisa, ela me apresentou uns 10 diferentes, em voz de metralhadora, tem esse, aquele, o do lado de cá do pasto o do terreno pedregoso… estarrecido apontei dois. Suspirei aliviado, pensando que a prova tinha acabado. Ela deu um risinho e soltou a questão seguinte: “e para que dia é?”. Como que dia? “Quando ele vai ser consumido?”. Eu estava comprando no princípio da semana, para comer na noite de sábado. “Sábado? Então é este aqui, pois ele vai estar no seu auge no dia”. Paguei e sai correndo antes de mais perguntas.

FOTO: Daniel Teixeira/Estadão

Mas a coluna é sobre vinhos.

Peguei alguns exemplares disponíveis no Brasil e diversas garrafas, para constatar o óbvio: os brancos se saem melhor.
Se você só tem uma garrafa para acompanhar todos os queijos a resposta é: Gewurztraminer. O da Alsácia é o mais perfeito, pois lá a uva é verbete de dicionário, perfeita. Há opções, por outros lados, inclusive no Brasil. Os queijos mais picantes e de casca mofada (brie, camembert, coulommiers) admitem um Chardonnay com traço de madeira. Os azuis são os mais indomáveis; no caso, como era um delicado bleu d’Auvergne, sem o über sabor e sal que costumam ter roqueforts menos elegantes, saiu-se muito bem com um Bordeaux branco. E os de massa semidura como o minas e o comté gostaram do Bordeaux também. Como os vinhos ao lado são de preço com 3 dígitos, fiz uma lista de sugestões alternativas de 2 dígitos, que cumprem o papel, embora sejam, claro, vinhos diferentes. Em um orçamento mais curto o Cruet de Savoie (R$ 55, Delacroix) pode representar o Château Guiraud. Para o Gewurztraminer ficam bem as possibilidades do Angheben Gewurztraminer (R$ 45, Vinci Vinhos) ou, segurem-se nas cadeiras, um vinho de R$ 14, o Almadén Gewurztraminer (em supermercados), que é bem gostoso. E o Chardonnay Cuvée Alexandre da Casa Lapostolle pode ser trocado pelo seu vinho mais simples, o Lapostolle Chardonnay (R$ 65, Mistral).

Na minha tarefa de construir um jardim de Epicuro, fiz minha Paris portátil com este farnel e fui para o parque. Em caso de chuva, arme o cenário na sala mesmo e refestele-se.

FOTOS: Divulgação

G de Guiraud 2009 – Excelente
Nariz de sério Sauvignon, austero, na boca é consistente, acidez equilibrada, denso e encorpado, longo, delicioso. É uma curiosidade, um vinho seco de um château de Sauternes, mais famoso por seus vinhos doces (R$ 178, Zahil, tel.: 3071-2900) – Combina com todos os queijos

Cave de Ribeauvillé Gewurztraminer Terroirs 2010 – Muito Bom 
Nariz típico da casta, muito floral, toque verdoso, na boca é seco com ligeira doçura residual, fácil de combinar com queijos, É refrescante e saboroso, uma aulinha de Gewurztraminer (R$ 119, Chez France, tel.: 31-2555-1506) – Combina com  minas, comté e bleu d’Auvergne

Cuvée Alexandre Lapostolle Chardonnay 2011 – Excelente
Nariz com toque de carvalho, belo Chardonnay chileno, ótima acidez, madeira bem integrada, bom corpo, bom de beber e com a promessa de vida longa na garrafa (R$ 130, Mistral, tel.: 3372-3400) – Combina com brie, camembert e coulommiers

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 7/11/2013

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