Paladar

Luiz Horta

Sekt não é só Schaumwein!

12 junho 2013 | 23:00 por Luiz Horta

O título da coluna pode soar assustador, mas não é preciso temer um palavrão. Esclareço: sekt, o espumante alemão de qualidade, é bom, não é schaumwein, designação genérica dos vinhos gaseificados sem pedigree. Conhecia poucos sekts – na verdade, provara só versões austríacas de vinhos borbulhantes. Fiquei um pouco surpreso por ver vários feitos de Riesling nas prateleiras.

Em um jantar, amigos serviram um muito bom, safrado, 2008, o que me surpreendeu mais: afinal colocar safra em espumante é coisa da elite dos produtores da região de Champagne e denota os grandes vinhos. E era bom, encorpado, profundo, com perlage delicada e cremosidade. Anotei o nome, voltei a prová-lo, dessa vez prestando atenção e comparando a outros dois.

Vieram as descobertas: não há nada de excepcional em estampar safra no rótulo. É a prática para esse tipo de vinho na Alemanha e não caracteriza nenhum ano ou produto especial. Já explico a razão. A outra e mais importante é que a uva Riesling tem um grande defeito para virar espumante, que acaba podendo ser virtude: os famosos terpenos.

Não me perguntem detalhes disso. Os terpenos são parte da química que ocorre na fermentação do mosto das uvas. São eles que dão o aroma característico da casta Riesling, descritos em degustações como de combustível, querosene.
Todo mundo identifica Riesling às cegas por esse cheiro, e rios de tinta já correram discutindo se é um defeito. Eu gosto. Ontem mesmo tomei um indescritível J.J. Prüm Auslese que era como cheirar um posto de gasolina com uma colmeia atrás, mistura de mel e petróleo.

Pois os terpenos, aprendi com o especialista britânico Tom Stevenson, interferem na evolução dos sekts, que não conseguem ter a complexidade no nariz dos champanhes. Mas compensam emprestando ao espumante a força expressiva da Riesling. De outra forma, os sekts seriam simples e monocromáticos como os Cavas espanhóis, só uma bebida aborrecida para tomar fria e espocar.

Foi então que tudo fez sentido. O sekt é gostoso por ser de Riesling, e por essa mesma razão precisa de tempo de garrafa, devendo ser bebido com alguma idade, o que explica a menção da safra nos rótulos. Explora da casta a sua capacidade para a longevidade, sem perder a graça de ser espumante. Nossa, achei que nunca entenderia isso, muito menos conseguiria explicar.

Viagem engarrafada

Parada 64/100: Alemanha, diversas regiões
Riesling – Uva querida pelos especialistas, consegue bom resultado em espumantes longevos.

FOTOS: Luiz Horta/Estadão

Stülb Brut 2011 – Muito Bom
Klaus Stülb
De um pequeno produtor do Mosel, é feito com cuidado e em pequena quantidade, pelo método tradicional de champanhe. É orgânico, ainda jovem, fácil de beber e delicado.

Scharzhofberger 2008 – Muito Bom
Bischöfliche Weingüter
O primeiro a me chamar atenção para a qualidade do sekt, complexo e encorpado espumante, de cor dourado-clara, traços evolutivos saborosos e elegância. Delicioso, começa a mostrar cansaço.

Geldermann Brut 2008 – Muito Bom
Geldermann
De um produtor gigante e onipresente, é menos complexo, mas guarda bom frescor e qualidade, apesar de ir para o lado do feito em série. Boa acidez.

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