Paladar

Luiz Horta

Sem medo de ser Château

A região, que era sinônimo de caro e complicado, tem muitas garrafas de valor pagável e qualidade

13 março 2013 | 23:20 por Luiz Horta

Vinho também tem modismos e lá vem de volta o pêndulo apontando como desejados os vinhos dos châteaux mais famosos do mundo: os de Bordeaux. É uma das melhores e mais famosas regiões produtoras do planeta. Um bordeaux evoluído, com duas décadas de idade, é um prazer imenso, e o Novo Mundo inteiro tenta copiar o estilo e a capacidade de envelhecimento exemplares.

Na clássica briga de mesa de bar a vin, tendo a preferir os bordeaux aos borgonhas. Sou grande fã da racionalidade cartesiana e da tradição bordelesa, o lugar onde a criação do homem está mais evidente. Se borgonha é pura emoção e capricho da natureza, dependendo da pureza de duas castas, do terroir e da safra, bordeaux é, em geral, a arte do blend, produto da inteligência e habilidade humanas.

Ficou com água na boca?

All Star verde. Sylvie Courselle em seu château, o Thieuley, exemplo da nova face de Bordeaux, informal. FOTO: Luiz Horta/Estadão

É uma fascinante disputa entre as duas irmãs-rivais. E ser um borgonhólatra ou um bordólatra define muito da personalidade de alguém. Não que eu prefira só bordeaux, basta tomar um Gevrey de Philippe Pacalet e viro a casaca na hora. Quando bebo um borgonha perfeito, fico borgonhês desde criancinha. Mas o momento é bordelês de novo.
Não é uma volta espontânea, por trás do sucesso há uma grande campanha para atrair novos bebedores, espantar o preconceito geracional e mostrar vitalidade. Deu certo. Como mostra o artigo de Eric Asimov abaixo, o medo acabou, os clientes e sommeliers já não estão mais assustados pela complexidade das sub-regiões e, mais importante, não temem mais os preços. Porque bordeaux pode ser caro.

Foi o fator preço o que mais afastou bebedores. Dinheiro novo na mão de chineses e russos e alta pontuação de Parker transformaram os grandes rótulos em fortunas impagáveis, por ostentação ou especulação.

Uma vez, muito tempo atrás, bebendo um Grange com o diretor da mais famosa empresa australiana, a Penfolds, ele me disse: “Bebem mais Mouton 82 em um ano em Las Vegas que a produção inteira do Château no século…”. Tenho visto nas redes sociais que aqui acontece fenômeno parecido. Estão enxugando rótulos que são para guarda muito antes da hora, com uma voracidade que transforma tesouros em refrigerante, e o prazer vai embora junto.

Mas, felizmente, não precisa morrer na grana para beber um vinho representativo da região e impressionar a mesa ao lado. Já fiz várias colunas sobre bordeaux de bom preço. E como novos vinhos continuam chegando, vale continuar provando. A mais recente foi sobre os ótimos rótulos trazidos pela rede de supermercados Saint Marché.

Hoje selecionei 4 garrafas, de quase 20 abertas recentemente. São dois vinhos do Château du Champ des Treilles, que, apesar do nome enorme, é um fundo de quintal, projeto pessoal do diretor do grande Pauillac biodinâmico da família Tesseron, o Château Pontet-Canet. Acho o Pontet-Canet o mais bem-sucedido bordeaux biô no meio dos big names.
Os outros dois são de uma produtora que visitei no ano passado, quando estive degustando os vinhos do grupo Oxygène. Trata-se do Château Thieuley, comandado pela moça de tênis verde da foto, Sylvie Courselle, ao lado de sua irmã Marie. O Château Thieuley tem tradição, duas jovens cuidando da enologia e vinhos gostosos, cheios de alegria, por um preço correto. Enxuguei a garrafa do refrescante branco e bebi o tinto com um frango assado dominical. Há um excelente tinto mais caro (R$ 148, o Reserve Francis Courselle), mas preferi me ater aqui aos abaixo de R$ 100. E me senti muito contente.

Grand Vin 2008 – Muito Bom
Château du Champ de Treilles. Belo nariz de frutas vermelhas com toques de defumado, boca longa, acidez focada e taninos finos. Suculento (R$ 89, Delacroix, tel.: 3034-6214)

Rouge 2010 – Muito Bom
Château Thieuley. Nariz intenso, com a Cabernet Franc aparecendo. Boca macia, taninos finos e a mineralidade da região. Fácil de beber (R$ 98, Ravin, tel.: 5574-5789)

Petit Champ 2010 – Muito Bom
Ch. du Champ des Treilles. Nariz muito frutado, boca com potência e elegância, taninos presentes, acidez agradável. Mineral e de corpo médio. Muito fino (R$ 75, Delacroix)

Blanc 2011 – Muito Bom 
Château Thieuley. Puro frescor, corte de Sémillon com um pouco de Sauvignon, intensamente mineral, equilibrado, matador de sede e saboroso. Ótimo achado (R$ 95, Ravin)

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