Paladar

Luiz Horta

Solo de balalaica

09 janeiro 2013 | 23:01 por Luiz Horta

O gentil viajante Taki Cordás, meu amigo, que já trouxe na mala uma degustação dos Bálcãs transformada em coluna, desta vez veio com vinhos da região do Mar Negro, de algumas ex-repúblicas soviéticas: Ucrânia, Geórgia, além da própria Rússia.

Vou assim completando a tarefa autoimposta de colocar uma rolha no mapa em cada região vinícola do mundo. Foram cinco vinhos, e não posso dizer que os degustadores saíram da mesa tocando balalaica de alegria. Mesmo assim, houve alguma poesia nesta prova.

Quando falam em Mar Negro, Crimeia e arredores, aqueles fios soltos que tenho na cabeça e chamo de cérebro logo produzem uma sinapse e soltam a palavra Tchecov. O dramaturgo, um dos que releio sempre e com gosto, nasceu por ali, em uma casa de campo perto do Mar de Azov, justo à região da vinícola estatal russa Fanagoria que bebemos.

O Mar de Azov é uma espécie de apêndice conectado ao Negro pelo Estreito de Kerch. É um dos mares interiores europeus.

Alguém falou em Tio Vânia aí? Pois é, eu situo imaginariamente a peça numa dacha no Mar Negro, lugar tradicional de veraneio para os russos, embora a peça, que eu saiba, não diga onde os fatos acontecem.

O vinho de que mais gostei tem muito de tchecoviano, é afrancesado (Aligoté, na Rússia! O que essa uva já secundária na Borgonha foi fazer por ali?), melancólico; fica naquela tensão que nunca se resolve em catarse, uma espécie de riso e choro internos. É fermentado sobre borras de Chardonnay que foi, por sua vez, fermentado em carvalho, o que lhe dá uma certa estrutura e complexidade.

Fiz uma coluna só de Aligotés da Borgonha, dois anos atrás, com o notável vinho de Aubert de Villaine se destacando. O russo não fez feio.

Os demais, bem, eram exatamente isso: os outros. Exceto pela oportunidade de provar um vinho com a uva Saperavi. Dois, na verdade: um varietal e um corte Cabernet Sauvignon-Saperavi. A acidez em ambos era meio deslocada, como acontece quando correções de acidez feitas na cantina erram a mão.

Pelas minhas regras de aprendizado, depois de conjeturar bastante é que vou checar nos livrões (sim, tenho um código de conduta para fazer o jogo das degustações mais interessante. Se souber tudo antes, qual a graça de provar?).

Primeiro Jancis Robinson, no seu tijolo Wine Grapes, me derruba: Aligoté é bastante popular no Leste Europeu. Ou seja, nada demais haver um bom vinho com a casta na Rússia, que ela menciona como produtora de qualidade de tais brancos, e a região que aponta como melhor é a que margeia o Mar Negro.

Depois a Saperavi, muito ácida, mas capaz de longevidade, que é originária da Geórgia e uva muito antiga, bastante usada em cortes para equilibrar a acidez de vinhos mais ligeiros, por ser bem escura (a palavra saperavi em georgiano, aprendo lá, quer dizer “corante”).

O vinho mais curioso da mesa, chamado Chegem, veio da Abecásia, que aprendo ser uma região em conflito com a Geórgia pela independência. Pobres cidadãos… Seu vinho era um “corte de uvas tintas” e parecia água de vaso. Conhecer uma garrafa de lá foi cultura; bebê-la, loucura.

Mas não vamos repetir Ivan Petrovitch Voinitski, o Tio Vânia da peça, e lamentar a perda de oportunidade na vida por receio do inesperado, vamos?

Aligoté – Bom
Nariz levemente adamascado, toque de madeira. Na boca é gostoso, com acidez discreta e equilibrada. Bom, sem ser brilhante, surpreende como vinho russo, mas é só curiosidade.

Cabernet-Saperavi – Regular
Nariz de fruta madura, na boca a Cabernet segura um pouco a agressiva acidez da Saperavi. Um vinho bebível, mas unidimensional, um pouco curto e com taninos levemente amargos no final.

Saperavi – Regular
Nariz estranho, como de molho inglês. Na boca é bem monocromático, acidez deslocada, parecendo ameixa japonesa em conserva. Vinho manipulado demais, sem frescor ou elegância. Decepção.

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