Paladar

Luiz Horta

Taylor’s made

14 novembro 2013 | 18:57 por Luiz Horta

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Mais um evento que não consigo ir, tem tanta coisa acontecendo que é preciso ter o atributo dos santos, a bilocação, a capacidade de estar em dois lugares ao mesmo tempo, e se desdobrar. Salvou-me o jornalista Marcel Miwa que estave na vertical de porto Taylor’s e escreveu o post abaixo.

Taylor’s made, por Marcel Miwa

[fotos Henry Araujo]

“Confesso que no universo dos vinhos fortificados tinha (já explico o tempo verbal) uma predileção pelos Jereces e Madeiras, deixando o Porto como terceira opção. Claro que as variedades das uvas, regiões, técnicas de produção e sabores são diferentes, mas entre os três talvez sejamos mais críticos com o Porto, pela maior proximidade da nossa cultura e maior frequência de consumo.

Considerando os últimos seis meses, fui compelido a colocar o vinho do Porto novamente entre meus fortificados favoritos. Culpa dos produtores. Numa rápida revisão lembro que no meio do ano Dominic Symington esteve por aqui e apresentou duas (excelentes) novidades das propriedades da família: O Porto Vintage Graham’s Stone Terraces 2011 e o Porto Capela da Quinta do Vesuvio 2011, ambos feitos de pequenas parcelas de vinhedos e lançados somente nos anos considerados excepcionais, quase o conceito de um Vintage dentro de um Vintage.

Em setembro, foi a vez de Christian Seely, diretor da AXA Millésimes (que controla a Quinta do Noval, além de outras propriedades em Bordeaux, Borgonha, Languedoc e Tokaj), apresentar toda a linha da Quinta do Noval. Não tive a emoção de provar o mítico Porto Vintage Quinta do Noval Nacional 1963, experiência que saiu no glupt! aqui (http://blogs.estadao.com.br/luiz-horta/emocao-expressao-reflexao/), mas pude provar na apresentação de Seely, aqui em São Paulo, uma generosa taça do Porto Vintage Quinta do Noval Nacional 2011, precedida pelo Porto Vintage “normal” da Quinta do Noval 2011.

Foi uma das raras oportunidades para se constatar que, sim, existem diferenças perceptíveis entre os dois, algo como diferenciar o equilíbrio (quando todos os recursos estão lá e balanceados) da harmonia (além dos recursos estarem lá, há uma conexão entre eles que forma algo maior).

Para fechar no melhor estilo “last but not least”, esta semana recebemos a visita de Adrian Bridge, diretor geral da Taylor’s, outra casa de vinhos do Porto famosa pelos Vintages e com reconhecido potencial de guarda. Justamente para comprovar este potencial, Bridge (junto com seu novo importador, a Qualimpor) decidiu fazer uma vertical de Taylor’s Vintage, com algumas das melhores safras de cada década, desde 1960. Historicamente, Taylor’s não declara mais que quatro Vintages por década. Portanto, a cada década, no máximo quatro costumam ser declaradas Vintage (safras excelentes, quando se considera que o produtor conseguiu a perfeita expressão do estilo da casa) e Adrian escolheu as mais expressivas dentro desta pequena elite.

Começando pela década de 60, o primeiro Vintage foi o Taylor’s 1963, uma das safras históricas em toda trajetória do Vinho do Porto. O vinho evoluiu exemplarmente, está com textura amanteigada, notas de frutas vermelhas cristalizadas, especiarias, amêndoa, caramelo e nozes, tudo em camadas, do começo ao longínquo final. Ainda está longe de lembrar um Tawny.

Em seguida duas relativas decepções, os Vintages 1977 e 1985 não estavam no mesmo nível dos demais. O primeiro com um álcool que “pica” o nariz e com notas de frutas mais maduras, enquanto o segundo estava em uma fase tímida, fechado, austero, com caráter mineral pronunciado. Conforme Bridge ressaltou: “os Portos Vintage passam por ciclos de exuberância e recolhimento, o 1985 deve melhorar em alguns anos”. Uma das estrelas da vertical foi o Taylor’s Vintage 1994. Com a força e intensidade da juventude, ao lado da complexidade e maciez da evolução em garrafa, esta safra é o que os ingleses “velha-guarda” definiriam como “an iron fist in a velvet glove” (um pulso de ferro dentro de uma luva aveludada).
A difícil tarefa de suceder 1994 foi o Vintage 2000, com notas de juventude mais presentes, cacau, violeta e frutas negras. Tudo em equilíbrio, mas segundo o próprio Bridge, também em uma fase mais fechada. Para fechar, a dupla 2007 e 2011 vieram para mostrar que o futuro é ainda mais promissor para Taylor’s. As duas safras são como irmãos gêmeos, com pequenas diferenças na personalidade, o Taylor’s Vintage 2007 o certinho, o irmão-modelo, enquanto Taylor’s Vintage 2011 (disponível na Qualimpor, por R$ 650,00), mais rebelde e eloquente.

Parafraseando a matéria da Times “The gods of food”, com Alex Atala na capa, alguns produtos, ainda que feitos para apenas uma pequena elite, com bom fôlego financeiro, são capazes de afetar os hábitos de todos. Todos os Portos citados acima parecem seguir esta linha. Se você está disposto a conhecer o potencial destes Vintages, mas sem desembolsar uma pequena fortuna em uma garrafa, uma boa solução é apostar nos L.B.V. (Late Bottle Vintage), estilo que Taylor’s foi um dos precursores a produzir e reproduz, em uma dimensão menor, as características de um Porto Vintage. O Taylor’s LBV custa R$ 159,00, na Qualimpor”.

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-Adran Bridge, diretor da Taylor’s-

Ficou com água na boca?