Paladar

Luiz Horta

Trindade de Montsant

02 outubro 2013 | 22:30 por Luiz Horta

Até 30 anos atrás não existia Priorato para bons vinhos. Era um região inóspita da Catalunha, chão de pura ardósia em escamas e, aparentemente, capaz só de vinhos rústicos e duros, para consumo local. Nos anos 1980 veio René Barbier, plantou Syrah, misturou com a boa Garnacha local, fez experiências e produziu um mito, o Clos Mogador. A admiração de críticos e especialistas fez o vinho virar ícone. A região virou uma das grandes da Espanha e os preços de ambos – vinhos e terras – ficaram impagáveis.

O solo é generoso e também caprichoso no caso das uvas. O exemplo mais clássico de como o terreno distribui de modo desigual seus talentos é a Borgonha: alguns metros para o lado e muda totalmente o modo como as videiras crescem e a qualidade de suas uvas.

Voltando ao Priorato, foi preciso olhar em volta: quase em um círculo concêntrico perfeito, a região no sudeste da Catalunha está envolta por Montsant. Os próprios produtores do Priorato começaram a buscar terras boas e bem mais baratas por ali.

A denominação de origem Montsant foi criada em 2001. Os vinhos são um pouco menos densos e mais prontos do que os produzidos no Priorato. Podem ser bebidos com menos tempo de guarda, pois usam mais Garnacha de velhos vinhedos que outras uvas, com um pouco de Cariñena no tempero (a Cariñena é bastante agressiva em acidez, uma uva ríspida quando usada sozinha). E, grande vantagem, os preços são claramente mais baixos, embora com um prazer semelhante no consumo.

Provei uma dezena de vinhos de Montsant e escolhi os três que mais me agradaram. Todos com preço amigável, o Plic Plic Plic é uma aventura extra dos doidões maiorquinos do Ánima Negra. O Capçanes é o mais importante vinho kosher feito na Espanha, Garnacha em estado de perfeição. O Besllum achei ótimo, macio e equilibrado, um verdadeiro vinho para ter sempre em casa, perfeito para acompanhar assados.

Plic Plic Plic – Muito Bom
Nariz bem fechado, bem diferente da alegria dos vinhos da Anima Negra em Maiorca. A fruta está lá, mas contida e calada. Na boca é austero, com acidez equilibrada e taninos um pouco duros ainda, traços minerais notáveis. Para esperar um pouco (R$ 71, na Mistral tel. 3372-3400).

Besllum – Muito Bom
Aroma bem sedutor, com algo de couro, alcatrão, um pouco de caramelo tostado. Na boca, está pronto. Taninos macios, delicioso e fácil de beber agora. Um vinho que cumpre o que vale, muito bom (R$ 83, na Grand Cru, tel. 3062-6388).

Peraj Habib Capçanes – Muito Bom
Bem discreto nos aromas, amável e elegante na boca, equilibrado e com taninos finos. Muito bem trabalhado. Bom vinho (R$ 180, na Confraria Kasher, tel. 95205-4720).

>> Veja a íntegra da edição do Paladar de 3/10/2013

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