Paladar

Luiz Horta

Trockenbeerenauslese, mas pode chamar de TBA

26 junho 2013 | 23:00 por Luiz Horta

Acabei de voltar de uma viagem à Borgonha. Não estou contando para me gabar, mas para explicar um paralelo: a semelhança entre o vinho alemão e o borgonhês. Tanto lá como aqui (estou em Berlim) imperam castas. A Pinot Noir e a Chardonnay dão o tom da Borgonha, a Riesling lidera na Alemanha. Há regiões de múltiplas uvas em que a intervenção humana é mais evidente. Bordeaux, por exemplo, onde a arte da assemblage é quase tão importante quanto o clima de cada ano.

Nas regiões de poucas uvas e de vinhos de uma casta só, o clima ganha enorme importância, assim como o solo. A natureza vira soberana e o vinhateiro passa mais tempo vigiando o céu, explorando o chão e zelando por suas criaturas. Fui com Philippe Pacalet a seu vinhedo de Beaune. Ele faz isso várias vezes por dia. Se pudesse, colocaria um colchonete e ficaria ali tomando conta das plantas.

Com a Riesling é igual. Um ano ruim afeta tudo; não há como corrigi-lo e só resta esperar outro ano.
Nos dois casos, Borgonha e Alemanha, os vinhateiros precisam fazer música com poucas notas. E desse pequeno repertório conseguem fazer sinfonias completas. Essa é a beleza dos dois lugares. A mesma Riesling permite a cristalina mineralidade dos trocken (secos) e a diversificada variedade de doçura e evolução, na complexa classificação dos vinhos alemães.

Escolhi falar de um único vinho (abaixo), um patrimônio do sabor, que é um TBA, sigla para a enorme palavra trockenbeerenauslese, os vinhos frutos do fungo da botritis, parentes dos Sauternes e Tokajs, na sua versão germânica. Na Alemanha e Áustria tais vinhos são classificados como TBA, quando são feitos com uvas botritizadas selecionadas, e custam muito caro, pois é preciso grande quantidade de uvas para produzir um pouco de líquido. Todas as uvas brancas do país podem ser TBAs, mas a mais nobre é, obviamente, a Riesling. Os TBAs são menos austeros que os Sauternes, que costumam ser quase secos, apesar do açúcar residual e menos exuberantes que os voluptuosos Tokajs. Ficam em um belo estilo intermediário, com o imponente açúcar compensado por gostosa acidez, mais as virtudes da Riesling. Quando envelhecem, ganham aromas de mel e frutas secas, avelãs e o traço típico da botritis, laranja seca e algo como cola de sapateiro, além do petrolado da Riesling. São fantásticos.

FOTO: Divulgação

Berg Schlossberg 2008 – Excelente
Kloster Eberbach
Nariz sedutor de Riesling com toque melífluo e de frutos secos e marzipã. Boca espetacular, a cremosidade doce com um toque delicado de acidez para equilibrar. Tem vida longa pela frente, décadas.

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