Paladar

Luiz Horta

Trufa-puxa

30 de janeiro de 2009 | 03h13 por Luiz Horta

Tem dias em que umas ideias vagas e devaneios se juntam, mágicamente, em algo que faz sentido. Ou parece fazer.

De tarde, conversa sobre trufas, negras e brancas. Lembrei, rindo, de umas trufas chinesas, em conserva, que comprei uns anos atrás. Pareciam pedaços de pneu. A piada era se tinha sabores Firestone, Michelin e Goodyear. Trufa é um fungo temperamental, recusa-se a aparecer onde o homem quer. E quando não quer ter gosto ou cheiro, não adianta insistir. Trufa acontece. Comi um ovo duro com maionese caseira e uma gorda fatia de trufa em cima, no Verre Vollé. Luxo total, não fosse o preço singelo, que redimensiona o prazer ao que é, sem luxo: 8 euros.

De noite, out of the blue, lembrei de um livrinho de Boécio, na vitrine da J.Vrin, que anotei mentalmente voltar para comprar e não voltei. Preço: 8 euros também.

Mas porque veio Boécio me visitar a memória? E o que ele tem a ver com trufas? Sem elaborar muito é evidente. As trufas são uma forma física para demonstrar o que o filósofo pensava: é possível algum gosto pequeno mesmo em momentos de grande adversidade (a dele, estar preso e condenado a morte. A nossa esta coisa toda desmoronando espetacularmente pelo mundo).

Trufas são um consolo bem boeciano. Só não podem ser de borracha.

Mais um momento cultural Glupt!

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