Paladar

Luiz Horta

Uma família vinífera

04 abril 2013 | 19:52 por Luiz Horta

Passou por São Paulo um dos maiores personagens do mundo do vinho, don Miguel Torres. História do vinho de qualidade na Catalunha, os Torres são parte do distinto grupo de famílias produtoras de grandes vinhos reunidas no clube Primum Familiae Vini, junto com os Hugels, os Rothschilds, os Drouhins, Pablo Alvarez (de Vega Sicilia), os Antinoris, os Symingtons, os Billys (de Pol Roger) e Egon Müller.

O que, surpresa, não quer dizer obrigatoriamente vinhos caros, mas vinhos bons e feitos com esmero.

Torres tem todo tipo de vinho. Viña Sol e Esmeralda, sua faixa simples, já me deram grandes alegrias. Desta vez, reencontrei meu estimado Mas La Plana. É sempre divertido lembrar que numa degustação às cegas, décadas passadas, Mas La Plana deu um chocolate em alguns bambambãs de Bordeaux e colocou o Penedés no mapa da Cabernet Sauvignon, tirando a região da tirania de só produzir cava.

Nesta visita tive a chance, exclusiva para o Paladar, de provar minivertical de Jean Léon, safras 1977, 1988 e 1994.

Jean Léon, o cidadão, nasceu humilde nas Astúrias, batizado Ceferino Carrión. A extrema pobreza fez a família se mudar para Barcelona nos anos 1940. Aos 19 anos, migrou para os Estados Unidos, alistou-se no Exército durante a guerra (quando mudou o nome para Jean Léon) e acabou trabalhando para Frank Sinatra e Joe di Maggio, no restaurante Villa Capri, sociedade de ambos. Em 1965, Léon abriu, com James Dean, um restaurante que pretendia ser o mais cool e exclusivo de Hollywood, o La Scala. Decidiu que o restaurante teria vinhos próprios e voltou à Espanha, comprou um vinhedo no Penedés, batizou-o de La Scala Vineyard e, ali, com o plantio de Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot, começou em 1962 a história dos vinhos que provei esta semana. Jean Léon morreu em 1969, mas deixou a vinícola aos cuidados de seu grande amigo Miguel Torres. Desde 1990, é uma das filhas do produtor, Mireia Torres, quem cuida da enologia empresa.

Dos três vinhos que bebi, o 1977, com 35 anos de idade, era o que menos me despertava expectativa. Surpreendeu: nariz sedutor, vivo, com incenso, couro, frutos secos e cor intensa, evolução inesperada. Na boca, dá sinais de começar a cansar, os taninos estão muito delicados, mas a acidez, viva. Um vinho delicioso, no fim de sua longa trajetória. O 1988 decepcionou, talvez pela garrafa; algum acidente fez com que o vinho oxidasse. Parecia mais velho que o 1977, bem decaído. O 1994 foi a estrela do trio, elegante. Vivaz, fino e muito saboroso, de extrema complexidade. Era o único dos três feito por Mireia Torres.

Continuei a degustação com o Manso de Velasco 2009 (produzido no Chile por Miguel Torres, o filho), que consegue ser chileno, nos traços delicados de piracina e eucalipto no nariz, mas com boca europeia, um grande vinho. E culminei com o Mas La Plana, ainda jovem, mas extraordinário, um dos grandes, sem dúvida, que merecerá sempre destaque. Um dos meus vinhos favoritos de toda a vida.

Mas La Plana 2006 – Favorito!
Torres
Pode ser resumido em uma palavra: soberbo. É um dos grandes vinhos da Espanha, ainda jovem, nariz intenso, enche a boca, acidez marcada, taninos finos, longo e com uma elegância pedagógica. Vinho de beber toda a garrafa, é preciso refrear a vontade (R$ 259).

Jean Léon 1994 – Excelente
Jean Léon/Torres
Estupendo. Nariz complexo, profundo e com vivacidade. Na boca, extremamente elegante, acidez perfeita, longo, encorpado sem peso algum, taninos macios (R$ 510).

Jean Léon 1988 – Bom
Jean Léon
Infelizmente uma garrafa prejudicada, provavelmente por vazamento de oxigênio através da rolha. Mostrava-se decaído e estava oxidado (R$ 454).

FOTO: Luiz Horta/Estadão

Jean Léon 1977 – Muito Bom
Jean Léon
Que surpresa! Um vinho catalão com longevidade de grande Bordeaux. Nariz de couro, folhas úmidas, flores secas. Boca com acidez viva, corpo equilibrado e longo. Está no fim da vida, mas delicioso (R$ 510).

ONDE COMPRAR
Importadora Devinum
tel.: 2532-7201
devinum.com.br

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