Paladar

Luiz Horta

Vale a pena ler de novo 1

29 março 2010 | 09:29 por Luiz Horta

Nem todo mundo que lê o Glupt! online tem acesso à edição impressa do jornal. Aqui o artigo (fantástico. Invejinha vermelha, azul e branca das “borbulhas quadradas”) de Sebastien Lapaque sobre Anselm Sélosse.

O Picasso da uva Chardonnay
Sébastien Lapaque
publicado no Glupt! em papel, no Paladar de 04 de março de 2010

Champanhe não é só borbulha, frescor e mineralidade. É também vinho. Para lembrar disso, é preciso esquecer os rótulos dourados, os nomes mais conhecidos, as garrafas produzidas às dezenas de milhões e se ater à obra dos vinicultores que trabalham suas vinhas e solos com carinho e colhem as uvas bem maduras, com a ambição de produzir vinhos de Champagne gostosos e naturais.

Um exemplo é Anselme Selosse, de Avize, vilarejo da região dos brancos, ao sul de Epernay. No primeiro gole, qualquer um com um pouco de paladar reconhece a obra do mestre. Menos enxofre, menos açúcar, menos cosméticos enológicos na cantina ? e menos dor de cabeça, menos distúrbios estomacais e muito mais alegria.

“Um grande vinho não é uma criação, é uma evidência”, afirma Anselme, para justificar sua desconfiança com os produtos da química industrial.

Visitar sua vinícola é mais que um encontro para degustação: é um exercício espiritual, um passeio nas alturas, uma elevação da alma. Lembro do encantamento de dois amigos paulistanos, Carmo e Jovelino Mineiro, numa visita a Avize em 2008. Outro vinicultor teria falado como um enólogo. Não Anselme. Ele nos conduziu num passeio pelo vinhedo e falou de seu trabalho como um jardineiro falando de seu jardim.

Gosto de tomar champanhe com Anselme, e mais ainda de ouvi-lo. Ele é, ao mesmo tempo, um filósofo grego, um teólogo místico ? Santo Anselme de Cantorbéry, orai por nós! ?, um moralista francês ao gosto do Grand Siècle. Humilde, profundo, sutil. Alguns (eu, entre eles) o colocam entre os dois ou três melhores vinicultores franceses da atualidade. Mas Anselme se vê mais como herdeiro de uma história: nos rótulos aparece o nome do pai, Jacques Selosse. Em sua cave, é tomado por imagens luminosas e surpreendentes. “Adoro quando o champanhe tem borbulhas quadradas, bem crocantes no dente”, afirma. Borbulhas quadradas? O homem é um poeta, um artista, o Picasso do Chardonnay.

Anselme produz também um pouco de champanhe com Pinot Noir, que dá origem a sua Cuvée Contraste. Impossível estabelecer uma hierarquia entre seus diferentes cortes. Ele comercializa 55 mil garrafas por ano e tudo que faz é bom. Meu preferido é o Substance, um dos mitos franceses de hoje. Feito de Chardonnay, é obtido pelo método espanhol solera. Vinhos de distintas safras equilibrados num único, engarrafado a cada ano, fazendo nascer uma “antesafra” em que os acidentes se apagam em proveito da substância.

É preciso ter degustado pelo menos uma vez na vida uma garrafa de Substance para saber o que é felicidade, eternidade. Enfim, para compreender o que é champanhe.

Sébastien Lapaque é jornalista do Le Figaro e autor do guia Le Petit Lapaque des Vins des Copains