Paladar

Luiz Horta

Ventos de renovação franceses chegam a Mendoza

06 março 2013 | 23:05 por Luiz Horta

Um brinde com Sébastien Lapaque

Quando se escuta falar em vinicultor francês em Mendoza, o que vem ao pensamento é uma multinacional, com investimentos em escala industrial, bodegas gigantescas edificadas no sopé da Cordilheira dos Andes e assinada por um arquiteto mundialmente renomado.

Quem poderia acreditar, então, que os ventos de renovação que arejam os vinhedos da França nos últimos 25 anos chegariam tão longe, até a Argentina?

Ficou com água na boca?

Quando chegou à região em 2005, Vincent Wallard trazia apenas uma bagagem, a concepção de vinhos tais como os ideados pelos vinhateiros franceses da Nouvelle Vague.

Uma ideia afinada a cada estação, enquanto participava das colheitas e vinificações em Bourgueil, com Catherine e Pierre Breton; em Bandol, no château de la Tour du Bon; e no Languedoc, no Domaine des Dimanches de Emile Heredia. Foi com o último, produtor na época residente na região de Coteaux du Vendômois, que sonhou fazer um vinho em Mendoza, virando as costas para os padrões estabelecidos pelos modelos internacionais.

“Meu encontro com Alberto Cecchin, herdeiro de uma antiga família de vinicultores com propriedades bem no centro da região de Maipú foi decisiva”, explica Vincent Wallard. Alberto tinha descoberto os vinhos alternativos e estava interessado no movimento Slowfood. Sua vinícola foi aos poucos sendo convertida para a prática da agricultura biô, mas ele ainda avançou mais, ousando produzir um Malbec sem adição de dióxido de enxofre, nas safras dos anos 2006, 2007, 2008 e 2009, que foi a mais recente a ser comercializada.

A tarefa de levar a revolução cultural seguinte até Mendoza, a de produzir um Malbec argentino por maceração semicarbônica, caberia à dupla Wallard e Emile Heredia, seguindo os jovens vinhateiros franceses da atualidade, ávidos por vinhos gostosos e cheios de fruta, taninos delicados e uma acidez presente oriunda da uva, coisa essencial em Mendoza, onde o problema de sua ausência é, geralmente, corrigido com uma boa dose de ácido tartárico adicionado na cantina.

Em março de 2011, 14 toneladas de uvas colhidas no momento exato, quer dizer, com muita acidez natural presente, foram vinificadas com mínima intervenção, o que permitiu a eles produzir, na Bodega Cecchin, 8 mil garrafas de 750 ml e 1.200 magnuns do vinho chamado de Cuatro Manos, vinho natural de Mendoza, com uma delicadeza e um sabor e frescor que o posicionam longe dos Malbecs tradicionais andinos. O Cuatro Manos está mais próximo de seus irmãos gêmeos franceses, feitos com a casta Côt, nome da Malbec nos arredores do Loire.

Esse vinho de autor, poético, cruzou de volta o Atlântico, nas mãos de Vincent Wallard, em novembro de 2012, para ser vendido em alguns cavistes e restaurantes excepcionais de Paris, Londres e Quebec. Foi um primeiro ensaio. Mas o renascimento promovido por Wallard e Emile Heredia comprova que um vinho francês com um espírito novo é possível na América do Sul. Sonho agora com uma experiência igualmente apaixonante acontecendo no Brasil!

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