Paladar

Luiz Horta

Vinho que não viaja

24 novembro 2011 | 06:56 por Luiz Horta

Rótulo. Txomin Etxaniz - Divulgação
Divulgação
Rótulo. Txomin Etxaniz

 

Txacolí é tão local quanto o queijo idiazábal e a língua basca. Há uns poucos produtores que exportam suas elegantes garrafas renanas (formato mais presente nos vinhos alsacianos e nos alemães do Mosel e do Reno, daí o nome), caso da vinícola Txomin Etxaniz, que ilustra a coluna.

Estive justamente nessa empresa. Fui buscado (arrastado descreveria melhor a criatura, despertado às 7 da manhã de um dia frio, em San Sebastián) no hotel e, ainda sem café, seguimos pela estreita estrada costeira que se espreme entre montanhas e o Mar Cantábrico. Imagine uma roda gigante horizontal, a sensação era essa, vertiginosa.

Alguns quilômetros adiante, numa centésima curva, parecendo um barco encalhado, apareceu o restaurante Elcano, onde servem os melhores frutos do mar da Península Ibérica. Olhando para baixo, um despenhadeiro, está o porto de Getaria, tão minúsculo que parece um brinde de Kinder Ovo. Olhando para cima, mas bem para cima, os vinhedos escalam a montanha. A sede da Txomin Etxaniz é praticamente uma pista de decolagem de asa delta. Venta bastante, o ar marinho fustiga e as uvas ali, pelejando para amadurecer. Disso tudo brota uma fineza mineral esplêndida. O vinho tem uma ponta de agulha, aquelas microbolhas que picam a língua, como nos vinhos verdes. A uva branca dos txacolís é a autóctone Hondarrabi Zuri. Já provei tentativas de dar outro status aos txacolís: tinto, feito de Hondarrabi Beltza, ou com passagem em madeira e até mesmo colheita tardia e fortificado. Puá para as três versões: mataram o charme do frescor original. Txacolís são como os bascos, daquele jeito ácido, duro, feito para acompanhar a comida da região, pintxos, bacalhau com pimentão, pequenos chipirones fritos. Há outra denominação de origem, a Biskariako Txakolina, mas prefiro a Getariako Txakolina. Um vinho assim não viaja bem. Trouxe algumas garrafas em diferentes oportunidades, mas quando as abri aqui, não ventou, não tinha maresia e ele virou um camponês desajeitado, sem saber como proceder na metrópole. Quem quiser que vá bebê-lo em Getaria (e aproveite para visitar o museu do estilista Balenciaga, que era de lá).

*** Txacolí 2010
Txomin Etxaniz
Nariz fechado, carbônico (sempre bom servir Txacolí fazendo jorro para retirar um pouco do gás) e de limões-sicilianos. Boca muito mineral e acidez que faz salivar. Para comida e para matar a sede

Viagem engarrafada
Parada nº 42/100
Getaria, Gipuskoa, País Basco, Espanha
Hondarrabi Zuri
Uva local, com acidez alta, bem cítrica e um pouco floral