Paladar

Luiz Horta

Vinhos alpinos (ou quase)

17 abril 2013 | 23:30 por Luiz Horta

A França é tão densamente vinícola que se permite ignorar regiões inteiras, menosprezando-as como “regiões sem vinhos”. É verdade que umas poucas, como a Normandia, são mesmo desprovidas de uvas, pelo clima grotescamente gelado e úmido (mas com cidras excelentes, para compensar).

Entre os diversos supostos buracos negros de viticultura, vão sendo descobertos enclaves de delícias. O Jura já venceu a barreira do desconhecimento – não há enófilo que não sorria diante de uma garrafa de Vin Jaune. Agora foi a vez de conhecer a Savoie, a Savoia, esbarrando na Suíça, com clima alpino, altitudes grandes para o padrão europeu de plantio (cerca de 600 metros nos pré-Alpes) e castas autóctones ou das regiões vizinhas: Pinot Noir, Gamay, Mondeuse, nos tintos; Roussanne, a tão suíça Chasselas, a esperada Chardonnay e a autóctone que me encantou, a Jacquère, nos brancos.

Provei apenas dois vinhos, ambos com preço bem amigável, mas a garrafa do branco esvaziou bem mais rápido. A Jacquère do Domaine de l’Idylle é uma uva enganosa. Parece simples, neutra, discreta, boa acidez, bem suíça. Tem um ponto bem distante de doce na boca, bastante para fazer que combine com chucrute e carne de porco, por exemplo. Predomina um grande frescor da acidez, que faz beber mais e com goles amplos. Mas inocente ela não é. Servida não muito gelada, liberou aromas de pera e toque cítrico; porém o que seduziu foi a mineralidade e a capacidade de ir combinando com toda a comida, inclusive queijos de cabra frescos. Ganhou complexidade para enfrentar uma torta de maçã ácida e ainda deu uma sambadinha magistral com abricots e frutas. Não sobrou gota.

O produtor é biodinâmico, familiar, tradicional, pequeno, tem 18 hectares no parque natural do maciço de Bauges, todo em solo argilo-calcáreo, e é um dos Vignerons Independents, o que quer dizer em francês de vinho moderno: do lado claro da força. É o Domaine de L’Idylle, que o importador Geoffroy de Sayve conheceu em uma de suas peregrinações e foi “amor ao primeiro gole”, como disse quando confessei que o branco tinha se tornado um favorito instantâneo para mim.

O tinto era gostoso, no estilo frutado e amplo dos vinhos com baixos taninos e bom de beber passado velozmente pela geladeira. Tem diversas virtudes de bebebilidade, principalmente a acidez (queria muito uma palavra em português tão descritiva quanto mouthwashing) salivante. É vinho para assados, aves sobretudo – e vivo escrevendo esta heresia: vai com um frango assado. Mas por que não? O que comemos domingo não é um franguinho? Poderia dizer (e funcionaria) que seria ótimo com codornas, perdizes e outras caças, mas ouso no máximo, na nossa mistura de asfalto e concreto sugerir um pato bem crocante. Mesmo assim, o branco me arrebatou de tal maneira que fico com ele.

FOTOS: Divulgação

Cruet 2011 – Favorito!
Domaine de l’Idylle. Branco da casta autóctone Jacquère, fresco, mineral, com aroma de peras e leve toque adamascado. Mata a sede com generosidade, combina com uma refeição inteira. Estou encantado (R$ 55, Delacroix, tel. 3034-6214)

Arbin 2011 – Muito Bom
Domaine de l’Idylle. Muita fruta, taninos macios, para beber frio com aves assadas. Gostoso e suculento, feito com a casta Mondeuse, faz lembrar um Gamay mais encorpado, agradável e bom de beber (R$ 72, Delacroix)

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